Entrevista - Vertigo Steps

Bruno A. tem estado associado ao que de melhor se tem feito no campo do metal nacional. Actualmente envolvido nos Vertigo Steps acaba de publicar o seu segundo álbum de originais, com um nível de qualidade impar. Curiosamente, o colectivo continua sem ter o apoio de uma editora, mas isso não parece impedir que The Melancholy Hour seja reconhecido dentro e extra muros. O próprio Bruno A., de forma muito eloquente, falou-nos deste seu presente, não esqueceu o passado e já foi adiantando alguma coisa do futuro.

Iniciaste os Vertigo Steps como um projecto de estúdio. Agora, três anos após o seu nascimento, ainda está nessa mesma fase ou já ponderas outras situações?
Boas à Via Nocturna! Com efeito VS foi iniciado como um projecto meu, mas desde logo com a ideia firme de contar com diversas colaborações. No presente, em que o nome está estabelecido, em que lançámos o segundo registo e componho já para o terceiro, a banda é uma realidade mas de qualquer forma é difícil que actuações ao vivo se venham a materializar, já que o Niko (vocalista) habita na Finlândia e isso digamos que dificulta um pouco as coisas... Isto para não falar do recrutamento de outros membros para tocar ao vivo, embora pense que isso seria menos árduo, pois já tive conhecimento de pessoas interessadas em fazê-lo e registo esse facto com apreço.

The Melancholy Hour é já o teu segundo trabalho. Que diferenças podes referir entre ele e a tua estreia, Vertigo Steps?
Existe uma evolução notória em praticamente todos os aspectos e nem poderia ser de outra forma! Há um trajecto a percorrer, VS é uma banda ambiciosa e terão de existir sempre melhorias significativas de álbum para álbum. The Melancholy Hour está impecavelmente produzido, bem estruturado e pensado nos mais variados aspectos e nota-se que desta vez tivemos mais tempo para preparar tudo e melhores condições em estúdio para que o processo se desenrolasse de forma fluida e descontraída. Estamos bastante contentes com o resultado final, opinião plenamente partilhada pela equipa de produção. Penso que é um trabalho que poderá figurar como um certo marco - um statement se quiseres - por tudo o que nele foi investido e pela forma como já está a ser recebido, particularmente a nível internacional. Também como que a dizer que mesmo ainda algo ignorado por editoras ou grande público, é possível criar-se obras de valor e que não se ficam apenas pelos esteios do espectro nacional.

Este volta a ser um disco com distribuição apenas digital. É uma opção tua ou uma contingência?
Uma contingência, sobretudo. Mas acredito que venha a existir ainda uma edição física do álbum – não é admissível que isso não aconteça! É a pergunta que mais me fazem cá e lá fora, jornalistas e público, e logo desde o álbum de estreia: como é possível que VS não seja uma banda assinada! De qualquer forma, por ora a venda digital parece-me uma boa alternativa: incluí mp3 de alta qualidade, capa e press-release e é um meio cujas vendas aumentam todos os anos. Penso que estará na altura de se perceber que é fulcral apoiar os artistas de quem se gosta, sacando à fonte por um valor reduzido do que piratear. Que é muito simples e giro... mas também mais um prego no caixão sobretudo de bandas menos conhecidas, e que não têm oportunidade de tocar ao vivo (onde actualmente se concretiza a maioria do retorno).

Voltaste a gravar nos Ultrasound com o Daniel Cardoso. É aquela sensação que em equipa que ganha não se mexe?
Sim sim, por aí. Ou caso se mexa, é para melhor. De qualquer forma já trabalho com ele há uma década – inicialmente apenas com baterista e agora também como produtor e input esporádico noutros campos (voz, baixo, piano). Neste caso gravámos no novo estúdio na Moita e tudo correu bem. Foi também um desafio para o Daniel – o de melhorar consideravelmente em relação ao primeiro trabalho; trabalhámos bastante em articulação e penso que os resultados estão à vista. Espero sinceramente que possa chegar ao maior número de pessoas possível.

Em termos de line-up, tiveste o Niko Mankinen nos vocais. Como foi feito o registo da sua prestação? Ele deslocou-se a Portugal?
Sim, tal como no primeiro álbum, ele viajou até Portugal. Mas desta vez combinámos as coisas de forma a que ficasse um período maior e se fizesse tudo com mais tempo. O Eyjafjallajoküll ainda assustou mas deu tréguas nos dias dos voos. De qualquer forma, tivemos largos meses de pré-produção para criar e deixar maturar as linhas vocais, via email.

Também tiveste o Daniel Cardoso a ajudar-te na bateria e baixo. Não ponderas o recrutamento de músicos definitivos para o colectivo?
Isso faria sentido apenas no caso de actuações ao vivo. Em estúdio, prefiro ter os melhores do que arranjar diversos músicos apenas porque sim. E o Daniel, a meu ver, é dos melhores e das pessoas em Portugal que admiro musicalmente e com quem me identifico. Outrora contámos com o Alexandre Ribeiro que fez um óptimo trabalho de baixo fretless mas decidimos mutuamente que tendo em vista a evolução sonora em The Melancholy Hour, resultaria bem melhor um baixo standard, com impacto e mais simplificado. Por isso, encarregámo-nos nós da sua gravação – o que também beneficiou a ligação super coesa com a bateria – e felizmente consideramos que o som de baixo ficou bastante bom.

E em relação aos diversos convidados? Como surgiu a hipótese de poderes contar com eles e de que forma eles deram o seu contributo para os temas?
Bem, já no álbum de estreia tivemos oportunidade de contar com diversas participações de peso. Desta vez quis reduzir um pouco o rol, sobretudo porque o Niko estava bastante mais integrado e preparado por isso não faria sentido dividir as vozes por tantas cabeças. Para esse efeito, conto novamente com o talento ímpar do Stein R Sordal (ex-Green Carnation, etc, que dispensa apresentações) e da minha colaboradora habitual Sophie (do projecto Ugarit – previamente conhecido por Understream), com quem existe um bom entendimento ao nível de vozes mais experimentais e variadas, que acrescentem algo efectivo às músicas e não somente para ter uma voz feminina, algo de que não sou nada apologista! O Rui Viegas e o Daniel ainda fizeram algumas vozes cada um num tema, mas desta vez a principal novidade foi o Jules Näveri (Insomnium, Profane Omen, Enemy Of The Sun). É um privilégio poder contar com este senhor, que aprecia imenso o nosso som e fez um brilhante trabalho, quer nos limpos de Silentground (onde canta quase em dueto com o Niko, recriando os tempos de Misery Inc.) quer nos únicos guturais do álbum, em Desperation Lair – uma faixa que conta uma história real e desesperada e que precisava mesmo daquela potência no refrão.

Fala-me de Through Sham Lenses – The Melancholy Hour Sessions. De que se trata?
Por enquanto ainda não existe nada definitivo mas a intenção é fazer um documentário sobre o processo de gravação, incluindo diversas filmagens em estúdio e uma entrevista aos 3 elementos, efectuada num luxuoso hotel em Lisboa, que basicamente ficou por nossa conta por umas horas. Uma experiência diferente que – à imagem do que fazemos com (quase) tudo na vida – levámos com humor e ironia. Mas no episódio de estúdio que se encontra online é possível ter uma ideia mais precisa do estilo de dinâmica e estética espelhadas nesse making-of. Pessoalmente, e até pela natureza cinemática do som, acho mais adequado e interessante uma abordagem mais contemplativa e ambiental do que… cinco macacos aos saltos pelo USS! Não que isso também não acontecesse – além do bizarro e carinhoso experimentalismo com os animais da quinta onde se situa o estúdio – apenas preferimos não focá-lo tanto.

E também foi feito um video para o tema INhale, certo? Porque a escolha deste tema em particular e como decorreu a sua realização?
O video para a INhale – que está felizmente a ter uma aceitação e feedback fantásticos – decorre também ele desse retrato muito naturalista do ambiente de estúdio. Considero-o um video muito bem conseguido e que espelha bem a diferença acima referida de VS em relação ao que costuma ser feito, nomeadamente a nível de studio-episodes e afins. O INhale foi escolhido por ser um dos temas que se destaca, até pela vertente acústica, as teclas e o crescendo de toada quase post-rock. Ainda considerámos fazer um edit mas hoje em dia grossa parte das visualizações é feita online e por isso não haveria que estar a retalhar um tema em que cada segundo dos 6 minutos de duração faz todo o sentido! É um tema muito emocional e melancólico, com um climax final de grande intensidade e que traduz até certo ponto uma orientação que estou a imprimir mais ao nosso som. Que já se nota bastante nas novas composições.

Finalmente, como está a tua situação com os Arcane Wisdom?
É um projecto que está enterrado e feliz entre as larvas, desde há já muitos anos. Embora ainda exista gente a perguntar por ele, foi um capítulo de passagem importante – até porque percebi desde cedo qual a forma melhor forma de trabalhar para mim – mas encontra-se definitivamente encerrado. No entanto, há ainda resquícios de AW em VS e julgo que quem apreciava esse projecto se pode facilmente identificar com este irmão mais velho e maturo, mas igualmente desesperado nas melodias e original na abordagem. Obrigado à VN pela divulgação e interesse! Mais info, vídeos e encomendas do álbum em: www.myspace.com/vertigosteps.

Comentários