quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Review: Poetry For The Poisoned (Kamelot)

Poetry For The Poisoned (Kamelot)
(2010, EarMusic/Edel)

Os norte-americanos Kamelot estão de regresso, três anos depois da desilusão que foi Ghost Opera para aquele que já é o seu décimo trabalho da carreira. E desde logo o que mais salta à vista é a alteração de baixista com o regresso de Sean Tibbets que já havia estado no grupo em 1991 e 1992, mas que só havia gravado a demo de 91, na altura sob a designação de Sean Christians. E se se esperava uma reviravolta na capacidade criativa da banda, ela não foi dada. Pelo contrário. Musicalmente, a banda de Roy Khan e Thomas Youngblood continua a fazer mais do mesmo. Metal melódico ora com power ora sem ele. Vocalizações muito certinhas e muito competentes, mas cada vez menos capazes de entusiasmar. Por isso o recurso a gente de fora. Bjorn Strid vocaliza de forma agressiva (como já havia acontecido com Shagrath em The Black Halo) a faixa de abertura The Great Pandemonium, apesar de tudo, uma entrada em grande; Jon Oliva empresta o seu inconfundível talento em The Zodiac, um tema que recupera a lenda do célebre psicopata americano; Simone Simons também volta a aparecer em House On A Hill e na segunda e terceira partes do tema título; Ammanda Sommerville também dá o seu contributo nos coros em The Zodiac e Poetry For The Poisoned. Muita gente de qualidade a contribuir nos vocais e Gus G. guitarrista dos Firewind a executar o seu instrumento em Hunter’s Season. Há aqui um par de temas que, realmente, empolga, mas a grande maioria vai passando de uma forma desinteressante. E se, como referimos, a entrada é feita em alta, não é preciso esperar muito para se verificar, logo á quarta faixa, que a imaginação começa a faltar. Daí para o fim, o álbum vai-se arrastando com alguns pormenores interessantes aqui e acolá. Mas só isso. Mesmo a tentativa de recriar a história soberba de Elizabeth do álbum Karma, aqui representada na forma Poetry For The Poisoned, apesar de se mostrar, ainda assim, um dos melhores momentos, fica a anos-luz da citada Elizabeth. Como aliás, todo o álbum fica das pérolas como Karma ou Epica, principalmente.

Tracklist:
1. The Great Pandemonium
2. If Tomorrow Come
3. Dear Editor
4. The Zodiac
5. Hunter’s Season
6. House On The Hill
7. Necropolis
8. My Train Of Thoughts
9. Seal Of Woven Years
10. Poetry For The Poisoned – Part 1 – Incubus
11. Poetry For The Poisoned – Part II – So Long
12. Poetry For The Poisoned – Part III – All Is Over
13. Poetry For The Poisoned – Part IV – Dissection
14. Once Upon A Time
15. Thespian Drama

Line up:
Roy Khan – vocais
Thomas Youngblood – guitarras
Sean Tibbets – baixo
Casy Grillo – bateria
Oliver Palotai - teclados

Internet:

Edição: EarMusic/Edel

Playlist 28 de Outubro de 2010

Review: Altered State (Tetrafusion)

Altered State (Tetrafusion)
(2010, Nightmare)

Atenção fãs de prog: isto é para vocês. Os Tetrafusion são a nova aposta da Nightmare Records e apresentam Altered State como o seu segundo trabalho (primeiro para o selo americano). A banda de Lousiana já se tinha revelado há um ano atrás quando editou, em nome próprio, Absolute Zero, um trabalho de metal experimental e instrumental na linha dos Liquid Tension Experiment, por exemplo. Para esta nova proposta a grande novidade é a introdução de vocais. Mas isso não retira um milímetro da competência que a banda vinha demonstrando ser capaz de produzir. Altered State é prog e experimentalismo ao mais alto nível e com o mais elevado índice de qualidade. Por momentos o seu prog é calmo, tranquilo, quase atmosférico, mais próximo do rock que do metal. Diríamos que numa linha próxima de uns Rush. Noutros momentos, a quarteto solta-se para cavalgadas lideradas por uma bateria veloz e por um a guitarra em devaneios técnicos mirabolantes. Nestas fases, o peso aumenta, a densidade também e o colectivo chega a aproximar-se dos Dream Theater. O curioso é que os Tetrafusion conseguem fazer tudo isso no mesmo tema! E até várias vezes! Mas mais: ainda conseguem arranjar espaço para experimentarem e introduzirem coisas novas como maradas estruturas jazzisticas, pianos calmos e tranquilos, guitarras acústicas, quebras rítmicas, contra-tempos, paragens e acelerações, psicadelismo e até coros épicos. Vocalmente, o duo de vocalistas apresenta um desempenho muito tranquilo, mesmo nas fases mais aceleradas, merecendo especial destaque a excelente conjugação das duas vozes que resulta particularmente bem em Shadows. A abertura e final de Altered State são do que melhor se tem feito neste campo. Collage Of The Present e Tears Of The Past são os dois temas mais longos (um próximo dos dez minutos; outro ultrapassa os doze), e são aqueles onde a banda aproveita para destilar toda a sua competência técnica, para por em prática toda a sua loucura e para explanar toda a sua complexidade. É também nestes temas que a vertente jazz mais se nota de uma forma mais espontânea. No restante, mesmo com temas mais curtos, os Tetrafusion não fogem nada aos critérios estabelecidos nos longos. A ponte com o trabalho de estreia é feita através da faixa que serve para baptizar o disco, um instrumental épico e altamente evoluído. Equivale isto por dizer que em Altered State o nível de qualidade é muito alto, a complexidade é elevada, a inteligência na composição estrutural e melódica é soberba. Ou seja, estamos na presença de um álbum muito equilibrado, compacto, onde existe aquele sentimento de permanente descoberta de novos e deliciosos pormenores.

Tracklist:
1. Collage Of The Present
2. Monologue
3. Last Chance
4. The Deserter
5. Altered State
6. Shadows
7. Tears Of The Past

Line up:
Gary Tubbs: vocais e teclados
Brooks Tarkington: guitarras e vocais
Mark Mitchell: baixo
J. C. Bryant: bateria

Internet:

Edição: Nightmare

Review: The End (Devil In Me)

The End (Devil In Me)
(2010, Rastilho)

Os Devil In Me são um dos nomes mais bem sucedidos dentro do metal contemporâneo produzido em Portugal e com dois álbuns (Born To Loose e Brothers In Arms) e um DVD (Live Fast Die Young) editados, permitiu-lhes viajar pela Europa e Estados Unidos acompanhando nomes como Sick Of It All, Madball ou Comeback Kid. Com a experiência acumulada partiram para a gravação do seu terceiro trabalho, chamando para a produção Andrew Neufeld (que também participa no tema The Fall), vocalista dos Comeback Kid e Sights & Sounds. E a criação actual superou tudo o que a banda fez anteriormente. São 12 hinos de melodias arrebatadoras cruzadas com uma postura punk-hardcore impetuosa adicionado de uma expressiva vertente épica e trágica que se revê na análise profética do fim catastrófico dos nossos tempos. Musicalmente, os Devil In Me apresentam um trabalho forte, denso e onde o groove desempenha um papel fundamental no equilíbrio dos temas. Estes são, de uma maneira geral, curtos, directos e incisivos, mostrando-nos uns vocais agonizantes que destacam por cima de uma secção rítmica muito forte e dinâmica e das guitarras cheias e poderosas. Após uma curta intro, a abertura das hostilidades faz-se em grande nível com The End e On My Own a apresentarem o álbum em patamares elevados. The End, é uma faixa muito forte, bem construída, plena de groove e de coros épicos; On My Own, por sua vez, entra noutros campos, revelando algumas reminiscências stoner. Ao poder de fogo já demonstrado, Push Twist & Turn e Right My Wrongs, introduzem velocidade, sendo que, a evolução dos temas acaba por os levar para ambientes mais compassados em determinadas fases dos mesmos. Essa velocidade regressa, depois de uma curta acalmia em Postponed, em The Fall. Para o final estão guardadas outras surpresas, a começar com City Of The Broken Dreams, a meio tempo, compassada, com um groove fantástico; a continuar com o hino que é Beast, a melhor faixa de The End, quanto a nós, pelos leads de guitarra e pelos coros épicos; e a terminar na peça thrash/death metal extremamente rápida que é Clain My World. Tudo elementos diferenciados que contribuem para que The End se mostre um disco pesado mas ao mesmo tempo suficientemente diversificado para conseguir atrair diversas facções de fãs.

Tracklist:
1. Day Of Reckoning
2. The End
3. On My Own
4. Push Twist & Turn
5. Right My Wrongs
6. Postponed
7. The Fall
8. Crossroads
9. Doomsday
10. City Of The Broken Dreams
11. Beast
12. Claim My World

Line up:
Poli
Matos
Bolo
Pedreiro
Tiago

Internet:

Edição: Rastilho

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Entrevista com Star One

Arjen Lucassen é um dos músicos mais criativos do panorama metálico internacional fazendo com que os seus projectos apresentem sempre um elevado nível de qualidade. Oito anos depois de Space Metal, o holandês resolveu voltar aos Star One, num trabalho pesado, como forma de contrabalançar o seu trabalho mais atmosférico de 2009 através de Guilt Machine. Em discurso directo, Arjen Anthony Lucassen, acedeu a contar os seus sentimentos sobre todos os seus projectos, transformando esta entrevista num dos momentos mais altos da existência de Via Nocturna

Nos últimos anos tens estado envolvido principalmente no projecto Ayreon. Sentiste necessidade de ressuscitar os Star One?
O meu último álbum foi o Guilt Machine, que foi um trabalho atmosférico. Como sempre, cada álbum que faço é uma reacção ao disco anterior. O que eu realmente queria fazer era um álbum de metal, novamente, o que automaticamente me direccionou para o Star One.

Quando começas a trabalhar, já está pré-estabelecido para que projecto é, ou decides após a percepção da direcção que as canções estão a tomar?
É diferente para cada projecto. Geralmente deixo apenas a minha inspiração guiar-me a ver onde ele me leva. Mas desta vez eu sabia desde o início que ia ser um álbum de Star One.

É fácil gerir tantos projectos em simultâneo?
Nunca são simultâneos! Só me concentro num projecto de cada vez. A escrita, gravação e mistura de um álbum leva-me cerca de um ano, e num álbum de Ayreon talvez um pouco mais.

Falando sobre outros projectos teus, existem algumas possibilidades para um novo álbum de Ambeon?
Infelizmente não! Astrid não está disponível. E não seria correcto fazê-lo com outra cantora.

E o que se passou com Stream of Passion. Criaste o projecto e depois abandonaste-o. Algum motivo em especial?
Eu configurei a banda para Marcela, porque ela fez um óptimo trabalho no Human Equation. Eu nunca planeei ser um membro da banda, só ajudei no inicio. Felizmente eles estão a fazer um bom trabalho e tudo está a funcionar perfeitamente!

E sobre o teu novo projecto Guilt Machine, com um álbum lançado no ano passado. Podes descrevê-lo melhor?
É um álbum muito pessoal, as letras são muito profundas a lidar com as depressões que eu e Lori passámos. Tem apenas uma vocalista e longas canções atmosféricas. Estou muito orgulhoso do álbum, mas infelizmente ele não vendeu tão bem como os meus outros projectos.

Oito anos se passaram desde Space Metal. O que mudou no conceito Star One?
O novo álbum é mais obscuro, mais pesado e mais terra-a-terra. Mas ainda tem aquele sentimento Star One como os teclados analógicos antigos, como o Hammond e Minimoog.

Realmente, parece-me que esta nova proposta está mais centrado nas guitarras e muito mais pesado. Foi a tua pretensão desde o início, suponho?
Ah, sim, eu senti que eu poderia melhorar o som das guitarras do primeiro álbum Star One. Por isso, passei semanas a tentar conseguir o som perfeito, porque isso iria ser a base das músicas.

Em Victims Of The Modern Age trabalhas novamente com vários vocalistas, mas não existe a ideia de uma ópera metal. No entanto é um álbum conceitual, certo?
Sim, de facto, o conceito é que todas as músicas são baseadas em filmes distópicos e pós-apocalípticos.

Como é o processo de criação nos teus projectos? Os vocalistas/músicos convidados desempenham algum na composição?
Em cada projecto é diferente. Em Star One a maioria das músicas são baseadas em riffs de guitarra; em Ayreon, eu começo com algumas melodias, sons ou sequências de acordes. Quanto à escrita, fui eu quem escreveu todas as músicas e letras.

Victims Of The Modern Age aparece em duas edições, sendo que a especial inclui um CD bónus com quatro músicas novas e uma cover dos ELP. Algum motivo especial para escolherem um tema deste grupo e porque não incluíste as outras quatro canções na edição regular?
Eu tinha 13 músicas no total e que não caberiam apenas num único CD. Eu escolhi as oito canções mais pesadas que parecem encaixar-se muito bem no primeiro CD. As outras canções do CD2 tem uma sensação um pouco diferente, mas eu gosto delas tanto quanto as faixas do CD1. A cover de ELP, Knife Edge, foi gravada para o CD de uma revista britânica chamada Classic Rock presents Prog, mas esse CD nunca foi lançado porque eles não detinham os direitos autorais de todas as versões dos ELP que as diversas bandas enviaram

Após Space Metal foste em tournee com os teus músicos. Achas que o mesmo é possível com Victims Of The Modern Age?
Será muito difícil, demorado e caro para conseguir todos os 10 músicos em conjunto para os ensaios e uma tournée, também, porque todos eles têm suas próprias bandas e projectos. Mas, em princípio, poderia contar com todos, por isso é uma opção. Só ainda não há planos definidos.

Entrevista com Deep Coma

Provando mais uma vez a vitalidade da cena açoriana, Deep Coma é mais um colectivo oriundo do arquipélago a criar trabalho válido. Tendo por base a mente de Tito Bettencourt, mais tarde com a junção do vocalista Maldor Evil, Deep Coma acabam de publicar Down The Gutter, um trabalho de difícil descrição e baptizado de Schizophrenic Metal pelo duo. Uma definição completamente ajustada, diga-se. O próprio multi-instrumentista Tito Bettencourt fala-nos desta nova entidade que, seguramente, irá agradar ao fãs das sonoridades mais extremas e menos convencionais.

Deep Coma formaram-se há apenas um ano. Podes contar-nos como tem sido essa experiência?
Desde que me lembro de criar as minhas músicas recordo-me também de as gravar… Com um MP3, telemóvel, o que quer que fosse. Deep Coma surgiu mais ou menos assim, foram temas que fui gravando já com uma qualidade sonora mais razoável. Comecei por ser eu a gravar as vozes todas também, mas depois optei por arranjar alguém que desempenhasse esse papel melhor que eu, e não me arrependo nada da escolha, visto que fiquei bastante contente com o trabalho do Maldor Evil. Acho a voz dele diferente e perfeitamente adaptável ao som dos meus temas. Senti que o produto final poderia ser partilhado com o pessoal, e a experiência até agora tem sido bastante gratificante, é bom saber que há quem tenha gostado do Down The Gutter.

Desde o inicio que definiste seres tu próprio a tocar todos os instrumentos ou foi uma contingência?
Simplesmente não tinha músicos para tocarem comigo e para ser sincero, não fiz grandes pesquisas. Optei por ir gravando tudo sozinho sem o auxílio de ninguém. Isto obviamente tem o seu lado mau, mas também tem um bom: sinto-me absolutamente livre de fazer o que quiser sem ir atrás de ninguém… Surge tudo de um modo mais natural e tem um cunho muito mais pessoal.

Quando Maldor Evil se juntou ao projecto em que fase estava a criação de Down The Gutter?
Digamos que tinha 5 dos 9 temas do Down The Gutter já gravados em versões instrumentais.

Está a pensar alargar o número de elementos?
É uma necessidade óbvia para se preparar concertos, por isso é um plano para um futuro não muito distante. Para gravar futuros temas penso que não, só se for membros convidados esporádicos como fiz no Down The Gutter.

E em termos de apresentações ao vivo como sucederá?
É o tal problema de arranjar elementos para tocar ao vivo e uma sala de ensaios, após culminados esses factores é ir preparando uma actuação de estreia.

A data de lançamento foi uma escolha criteriosa? Algum motivo especial o 10-10-10?
Não. Basicamente o registo ficou pronto na primeira semana de Outubro e já que estávamos à beira de uma data engraçada decidi esperar mais uns dias para disponibilizar o CD.

Apesar de Deep Coma ser quase indescritível, se te pedisse para o descreveres o que dirias?
Concordo quando dizes indescritível… Prefiro que cada um tenha a sua maneira de perceber o nosso som. Para mim é talvez a descarga de todos os meus sentimentos negativos que tento transmitir através das letras e da música, e o Maldor Evil competentemente cai no sentimento de determinada música e exibe-se às vezes de uma forma mais teatral, factor que tenciono continuar a usar nos temas de Deep Coma.

Acredito que em termos líricos Deep Coma siga a mesma regra do campo musical, ou seja apoteótico. Realmente, que tratam as letras em Down The Gutter?
Digamos que todas elas abordam assuntos diferentes mas todos partilham algo em comum: são bastante negativas e pessimistas. Alguns abordam temas mais gerais e outros de experiências mais pessoais e verdadeiras. Por exemplo: Hate (all the way) fala do sentimento de ódio em geral, Addicted To Kill é inspirada no filme mais psicótico que já vi (Henry: A Portrait of a Serial Killer), Day by Day fala daqueles dias em que a rotina é a nossa pior inimiga, Surrounded daquele sentimento que uma pessoa está rodeada de pessoas que não gosta e por aí adiante.

Acredito que seja ainda cedo para falarmos de feed back, mas podes dar-me as tuas expectativas em relação a este lançamento?
Digamos que neste curto tempo desde o lançamento, o número de downloads e as críticas que se têm vindo a ouvir têm sido bem positivas. Agora é continuar a promover o álbum através de diversas maneiras para que chegue ao maior número de pessoas possível e esperar por novas críticas, que são, bastante importantes nesta fase. Aproveito para agradecer-te a ti e pelo interesse em nos entrevistar, e queria anunciar para quem não sabe que Down The Gutter está disponível para download gratuito através do nosso MySpace: www.myspace.com/deepcomaband

domingo, 24 de outubro de 2010

Review: Aqua (Angra)

Aqua (Angra)
(2010, SPV/Steamhammer)

Quatro anos depois e com um novo baterista (o regresso de Ricardo Confessori para o lugar de Aquiles Priester), os Angra aí estão com mais um trabalho de superior qualidade. Desde a curta introdução Viderunt Te Aquae até ao final calmo, sinfónico e emotivo de Ashes, Aqua revela-se um trabalho completo, variado, portentoso e técnico. O power metal da escola europeia que os Angra sempre praticaram está cada vez mais impregnado de elementos progressivos que, em momentos os aproximam de uns Dream Theater. A isto, claro que se adiciona muita sensibilidade étnica e alguns apontamentos sinfónicos, como já é, aliás, habitual. E agora, em Aqua, com os elementos acústicos a surgirem com uma assinalável frequência e contribuindo para a riqueza estilística do álbum. Depois da já citada introdução, Arising Thunder é um tema típico para abrir as hostilidades: muito rápido, com uma potente secção rítmica, técnica exemplar, melodia cativante. Mas esta é só a abertura e não nos prepara para todo um desfilar de surpresas agradáveis que iremos escutar ao longo do disco. Isto porque logo de seguida, Awake From Darkness, se revela como um dos melhores momentos jamais criados pelo colectivo brasileiro: à mesma rapidez e potência da secção rítmica juntam-se agora elementos progressivos, um breakdown sinfónico de rara beleza e uma melodia soberba com os vocais altos e com o prolongamento das notas a mostrar-nos Edu Falaschi perfeito no domínio vocal. Ao quarto tema, Lease Of Life, a banda abranda para criar um excelente momento introspectivo liderado por um piano saltitante cruzado com um fantástico desempenho do baixo e da bateria. The Rage Of The Waters e Spirit Of The Air voltam a aumentar a carga das guitarras sem perder o brilho melódico e progressivo, assumindo-se como os temas mais ricos em termos instrumentais com muita variação e, no caso particular da segunda, com a inclusão brilhante de coros, dedilhados acústicos e violinos. Hollow é um dos mais fortes temas de Aqua, com um inicio quase thrash metal e que acaba, surpreendentemente para evoluir para um momento acústico. A Monster In Her Eyes é uma faixa com uma das mais belas melodias do disco e Weakness Of A Man enquadra todos os elementos referidos anteriormente numa caixa com forte tendência étnica e progressiva. O final faz-se em grande beleza com Ashes, uma semi balada vocalizada com muita emotividade e com uma melodia assombrosa. Acaba por ser o final mais que perfeito para aquele que deve ser considerado como um dos melhores álbuns dos Angra, senão mesmo o melhor da sua carreira.

Tracklist:
1. Viderunt Te Aquae
2. Arising Thunder
3. Awake From Darkness
4. Lease Of Life
5. The Rage Of The Waters
6. Spirit Of The Air
7. Hollow
8. A Monster In Her Eyes
9. Weakness Of A Man
10. Ashes

Lineup:
Edu Falaschi – vocais
Kiko Loureiro – guitarras
Rafael Bittencourt – guitarras
Felipe Andreoli – baixo
Ricardo Confessori – bateria

Internet:

Edição: SPV/Steamhammer

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Playlist 21 de Outubro de 2010

Review: Into Forever (7 Days)

Into Forever (7 Days)
(2010, Liljegren Records)

A história está cheia de supergrupos que incluem elementos de renome de outras bandas. E sabemos bem que, muitas vezes esses super grupos resultam em pleno aproveitando o know how de cada elemento; mas também sabemos que há muitos casos de desilusão face ao que esses músicos faziam nas suas bandas de origem. Cabe esta introdução a propósito dos 7 Days, projecto liderado por Markus Sigfridsson, que se enquadra na definição de super grupo e que reúne alguns ilustres da cena musical de peso sueca. Este é já o segundo álbum do projecto, depois de The Weight Of The World (de 2006) e marca a estreia de mais uma editora, a Liljegren Records, gerida precisamente por Christian Liljegren vocalista dos Audiovision, Golden Resurrection, Divinefire e ex-Narnia) e que aqui também participa com alguns vocais. E para enquadrar, pode dizer-se que este Into Forever se encaixa no segundo lote de classes de projectos anunciados no inicio. Isto é, acaba por desiludir face às expectativas criadas. É certo que a criatividade não falta, mas nem sempre é bem canalizada. O press release fala em metal melódico, mas a verdade é que a banda sendo, indubitavelmente melódica, veste a pele de um power metal de contornos progressivos em que as constantes alterações rítmicas e melódicas com o frequente recurso aos teclados são as principais características. Os temas são, então, constituídos por diversas secções diferenciadas. O problema surge quando essas secções não encaixam de forma convincente e agradável ao ouvido. Na prática é como se estivessem a montar um puzzle de tal forma que não faça sentido. Por outro lado, tantas paragens e arranques e tantos breakdowns fazem com que os temas fiquem sem uma lógica organizacional. No entanto deve apontar-se que tecnicamente este é um trabalho de boa qualidade quer em termos instrumentais quer em termos vocais. Aliás, só se esperaria isso tal a qualidade dos nomes envolvidos. No entanto falta o mais importante: boas canções. Pelo que Into Forever se torna um álbum banal.

Tracklist:
1. Through Dark And Light
2. Into Forever
3. The Innocence In Me
4. You Hold The Key
5. Enter a Dream
6. Crossing
7. We Cry No More
8. Under The Sun
9. Scattered Mind
10. Final Wisdom
11. What Matters

Lineup:
Markus Sigfridsson – guitarras e teclados
Daniel Flores – bateria
Kaspar Dahlqvist – teclados solo
Andreas Passmark – baixo
Thomas Vikstrom, Caroline Sigfridsson, Christian Liljegren e Erik Tordsson – vocais

Internet:

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Review: Down The Gutter (Deep Coma)

Down The Gutter (Deep Coma)
(2010, Edição de Autor)

Pegando nas próprias palavras do multi-instrumentista Tito Bettencourt, o criador deste projecto, Deep Coma começou em 2009 com aspirações de groove metal mas sem compromissos. Na curiosa data de 10-10-10, Down The Gutter, o primeiro trabalho da banda, agora reforçada com o vocalista Maldor Evil (o duo conta, ainda, com as participações especiais de Paulo Bettencourt dos Morbid Death que executa o solo em Addicted To Kill, Miguel Raposo (Psy Enemy) e Hugo Almeida (Summoned Hell) que auxiliam nos vocais, respectivamente, em Killing Tomorrow e The Backstabber) vê a luz do dia. São, ainda de acordo com o músico 9 temas e trinta minutos de demência e comportamentos bizarros demonstrados a partir de música. Nove temas que correspondem a nove pequenas descargas sónicas com elevado poder destruidor. E o que é certo é que esta nova entidade, que afinal vem reforçar a borbulhante cena açoriana, se torna um pouco difícil de descrever. Há violência, há sangue, há vocalizações agonizantes, há momentos caóticos, há ambientes sinistros, há groove. E mesmo quando Maldor Evil utiliza vocais limpos (ex: Surrounded) continuam a existir todos esses cenários anteriormente descritos. Musicalmente, Deep Coma retrata diversas conexões entre um thrash metal e um death metal angustiante. Pelo meio, alguns apontamentos noise e industrial ajudam a criar ainda mais clima de negritude, angústia e esquizofrenia. E, pontualmente, ainda somos assaltados por apontamentos grunge. E é com esse espírito de caos, reforçado por essa dose de imprevisibilidade que torna Down The Gutter um trabalho que os defensores das sonoridades mais extremas não devem perder.

Tracklist:
1. Hate (All The Way)
2. Compulsive Disorder
3. Addicted To Kill
4. Dear World
5. No Soul
6. Killing Tomorrow
7. Surrounded
8. The Backstabber
9. Day By Day

Lineup:
Maldor Evil – vocais
Tito Bettencourt – todos instrumentos

Internet:

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Review: Presságios (Face Oculta)

Presságios (Face Oculta)
(2010, Edição de Autor)

E assim acaba o mundo: não com uma explosão mas com um suspiro. E é desta forma profética que se resume muito do conceito subjacente ao EP Presságios dos Face Oculta. Partindo das antigas profecias sobre o fim do mundo, o quarteto construiu um trabalho de cinco temas em que a componente lírica (totalmente vocalizada em português) se revela extraordinariamente interessante, com especial destaque para o tema final, Face Oculta, onde a inclusão de um excerto da letra do Hino Nacional se revela muito adequada e bem integrada. Musicalmente, o colectivo pratica um hard rock que nos remete para os primórdio do género no nosso país, nomeadamente NZZN, Xeque Mate ou STS Paranoid. Portanto, já se nota que aqui se fala de ambientes um pouco retro que servem, simultaneamente, de homenagem aos nomes citados. De uma maneira geral as estruturas rítmicas são relativamente simples, mas tremendamente eficazes no sentido melódico e os solos, sempre muito bem integrados e introduzidos, são outra das mais-valias. Individualmente, os cinco temas variam entre a excelente balada Eco no Escuro na linha dos Iron Maiden do tempo de Paul DiAnno e temas mais duros como Dono da Verdade. No entanto, a abertura com Profeta do Passado mostra-se com o feeeling adequado para agarrar o ouvinte desde logo, mas é no fecho, com Face Oculta, que a banda demonstra toda a sua capacidade criativa, com a inclusão de uma quebra acústica que eleva o tema a superiores patamares de beleza. Este conjunto de cinco temas acaba por demonstrar que, independentemente dos extremismos vigentes, ainda há bandas com vontade e energia para invertem o sentido de marcha e não seguirem os sons da moda. Além do mais os Face Oculta demonstram toda uma força e querer que os fez pegar nas malas e correr o país de lés a lés em tournée. Essa força fica, também, demonstrada em Presságios, profetizando algo de muito positivo para a carreira da banda de Corroios.

Tracklist:
1. Profeta do Passado
2. Dono da Verdade
3. Liberdade
4. Eco no Escuro
5. Face Oculta

Lineup:
Telmo – bateria
Alexandre – Vocais, guitarras
Cátia – guitarra ritmo
Nuno – baixo

Internet:
www.myspace.com/bandfaceoculta

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Entrevista com Soulspell

Criar uma opera metal não é tarefa fácil. Mas o baterista brasileiro Heleno Vale não se assustou e criou uma fantástica história que já vai na segunda parte, com The Labyrinth Of Truths e promete não parar por aqui. Conheçam melhor esta história e os seus protagonistas pela escrita do seu próprio criador.

O que te motivou a escrever uma opera metal?
O Brasil é um país enorme e repleto de talentosos músicos. Achei que poderíamos realizar uma obra excelente, apenas com músicos do nosso país. É disso que se trata nosso primeiro álbum, uma vitrina dos talentos do Brasil. A motivação maior foi esta, mostrar ao mundo a quantidade de coisas boas e diversidade que há na cultura brasileira.

Quanto tempo trabalhaste na composição e delineamento desta obra?
O primeiro disco demorou dois anos, entre 2006 a 2008; este segundo álbum entre 2008 a 2010. Ou seja, dois anos para cada álbum. Acho que é um bom tempo para se produzir um disco interessante e repleto de detalhes especiais.

Quando partiste para a criação de uma obra desta grandiosidade tinhas noçãodos riscos que corrias?
Claro que sim. Não foi fácil tomar essa decisão, porém hoje em dia vejo que tomei a decisão correcta, pois todos os músicos, o público e a comunicação social receberam muito bem esse segundo álbum. Foi uma decisão tomada com base em muito amor ao Heavy Metal e vontade de trabalhar. Quando se tem um sonho, deve fazer-se tudo que se puder para o alcançar. Nós nos Soulspell estamosa fazer tudo que podemos e ainda mais um pouco para superar as imensas dificuldades do mercado actual.

Tiveste a colaboração de outros músicos?
Ah sim! Com certeza. Sem todos os meus queridos amigos e músicos nada disso seria possível e o nosso segundo álbum nunca teria a mesma qualidade.Tito Falaschi, o nosso produtor, ajudou-me muito. Heros Trech, o responsável pela mistura, também fez um trabalho maravilhoso. E, cada um dos muitos instrumentistas e vocalistas tiveram liberdade total para alterar suas linhas da maneira mais adequada. O sucesso do Soulspell com certeza tem raízes nesse sentimento de união e cooperação de cada um de seus integrantes. Mesmo os contactos internacionais não teriam sido possíveis sem a ajuda de alguns queridos amigos.
Podes descrever-nos a história desta ópera?
Sem dúvida. A história de Soulspell é um conto de fadas especial,onde é narrada a vida de um jovem garoto, que é atormentado por visões das suas vidas passadas. Ao longo do seu tortuoso caminho, esse garoto descobre muitos factos e enfrenta diversas situações que alteram completamente o rumo de cada personagem da história. O seu filho, o personagem principal do segundo disco de Soulspell, possui o mesmo dom especial do seu pai (a capacidade de enxergar momentos de suas vidas passadas) e enfrenta muitas situações de conflitos internos e novos e diferentes sentimentos a cada música que passa. A trama tem seu ápice na dimensão atemporal do Labirinto das Verdades, local guardado pelo dragão vigilante Hollow. A história é repleta de analogias com factos históricos reais, como a segunda guerra mundial, ou a era de Ramsés II e de lições de vida emocionantes. É uma história bastante complexa e interessante, que terá seu final conhecido apenas no terceiro, quarto,quinto ou sexto discos (risos). Tu pode escutar os discos em apenas 60minutos cada um, porém podes demorar a vida toda para entender a história desse conto de fadas triste, estranho, profundo e tenebroso. Há desenhos dos personagens e a sua descrição no site oficial do projecto. Tudo se torna bem mais interessante, quando o público acompanha cada passo do personagem, durante as letras, história e desenhos divulgados.

Como foi o procedimento para a escolha dos artistas e das respectivaspersonagens?
Como eu disse anteriormente, o Brasil é um país repleto de talentosos músicos, de diversos estilos. Portanto, não é nada fácil escolher apenas 10 ou 20 participantes para cantar num projecto desse tipo. Eu convido aqueles que acredito que farão um bom trabalho para determinado personagem, mas ainda há muita gente que quero convidar, portanto o projecto Soulspell deve ter vários álbuns de vida pela frente. O mesmo vale para artistas nacionais ou internacionais. Convido quem acho que encaixará com algum personagem. Realizo, também, concursos para descobertade novos talentos aqui no Brasil. É algo bastante divertido, interessante e produtivo para a cultura do país.

E como foi juntar tanta gente num só projecto, alguma dela verdadeiramente ilustre?
Eu adoro o que faço, portanto curti cada momento desses 4 anos de projecto. Cada músico vem com uma experiência de vida e um talento diferente e maravilhoso. Tudo acrescenta a todos, obviamente, inclusive a mim. Cada artista nacional ou internacional contribuiu como uma peça de um quebra-cabeças gigantesco. A empolgação a cada novo artista convidado ou a cada trecho gravado foi sempre constante no projecto. Não é possível descrever em palavras a felicidade de receber um sim de um artista do qual sempre fui fã,como Jon Oliva, Zak Stevens, Edu Falaschi, Roland Grapow, Mário Pastore, Nando Fernandes e todos meus grandes amigos e músicos dos Soulspell.
E esses convidados, de alguma forma, influenciaram o formato final das composições?
É claro que sim. Como eu disse, cada um teve total liberdade para criar e com certeza os mais experientes ajudaram muito no resultado final.

Estás a pensar levar este projecto para palco? Se sim, de que forma?
Estou sim. O projecto já tem 9 shows agendados para o final deste ano, no Brasil. Estamos a realizar os shows com cerca de 10 integrantes, somando um total de 5 vozes que estão a ensaiar com a banda e farão todos osespectáculos. Alguns convidados especiais participarão apenas em shows específicos. Espero poder tocar em palcos da Europa, Japão e o restante da América do Sul e Norte.

Haverá continuidade para esta história?
Claro que sim. Espero que o projecto possa gravar ainda muitos álbuns, para revelar muita gente talentosa e produzir muita música de qualidade para o Heavy Metal brasileiro e mundial. Só depende dos fãs continuarem a apoiar-nos. Da minha parte a vontade é imensa e a persistência é uma marca.

Parabéns pelo trabalho e obrigado!
Eu que agradeço pelas excelentes perguntas. Um grande abraço a todos e encontrar-nos-emos nos shows e nos próximos discos.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Review: Fire Flight (Stratosphere)

Fire Flight (Stratosphere)
(2010, Escape)

Nascidos da mente do virtuoso teclista Jeppe Lund, os Stratosphere, ao contrário do que o seu nome poderá sugerir, não seguem as pisadas dos Stratovarius, se bem que num par de temas a velocidade e capacidade técnico-melódica ande lá perto. No entanto, a maioria dos temas ficam por um suave hard FM/AOR muito radio friendly, criado com algum bom gosto. Misturado surgem algumas influências do metal neoclássico, sugerindo nomes como Yngwie Malmsteen, não só ao nível do trabalho do guitarrista Jonas Larsen, como na excelente prestação vocal de Goran Edman, precisamente um dos muitos ex-vocalista do guitarrista sueco. O trabalho nesse aspecto acaba por estar muito bem equilibrado e doseado, com dois instrumentais, dois temas velozes e duas baladas. Os instrumentais permitem que Jonas Larsson e Jeppe Lund executem duelos de solos memoráveis sendo Rendezvous muito rápido (é um dos temas que tem por base os critérios dos Stratovarius) e Fire Flight mais calmo, mas igualmente forte numa linha claramente malmsteeniana. A velocidade está patente em Rendezvous (precisamente o instrumental) e VIP enquanto as baladas, Enemy Of My Soul e Princess Of The Night estão muito bem conseguidas com particular destaque para a segunda com uma belissima melodia quase de serenata. O classicismo também faz parte desta obra sendo que quer em Princess Of The Night quer em VIP os solos de Larsen evoluiem de uma forma muito natural e espontânea para temas clássicos. No resto, prima o hard rock na linha de uns Rainbow com um baixo poderoso (The Battle Within ou Shining Star) ou o AOR como na abertura com Russian Summer ou em Streets Of Moscow, uma estranha e curiosa tendência russa.

Tracklist:
1. Russian Summer
2. The Battle Within
3. Enemy Of My Soul
4. Streets Of Moscow
5. Rendezvous
6. Shining Star
7. China Girl
8. Princess Of The Night
9. VIP
10. Fire Flight

Line Up:
Goran Edman – vocais
Jonas Larsen – guitarras
Jim McCarty – bateria
Anders Borre Mathiesen – baixo
Jeppe Lund – teclados

Internet:
http://www.goranedman.net/

Edição:
Escape Music

Playlist 14 de Outubro de 2010


Review: Victims Of The Modern Age (Star One)

Victims Of The Modern Age (Star One)
(2010, InsideOut)

Arjen Lucassen é um dos mais proeminentes criadores do metal na sua vertente mais progressiva, sendo que Ayreon será o seu projecto com maior visibilidade. No entanto, nas horas livres o músico holandês, com uma carreira superior a três décadas, dedica-se a criar outras sonoridades. Mais recentemente foi o álbum On This Perfect Day dos Guilt Machine, publicado em 2009, mas facilmente nos lembraremos de Ambeon ou Stream Of Passion. Star One é outro dos seres criados pelo multi-instrumentista que estava parado desde 2002, altura da edição de Space Metal. Oito anos depois dá-se o regresso com algumas diferenças: a história desce do espaço à terra e endurece. Este é, por isso, seguramente o disco mais pesado, mais obscuro e mais orientado para as guitarras da sua carreira. Mas, independentemente disso, os teclados estão muito presentes no seu inconfundível estilo sci-fi. Em termos vocais, a lista ficou mais restrita, mas ainda assim, este é um disco de superior qualidade neste segmento. As provas são dadas, por exemplo, em Digital Rain com um final à capella com um excelente jogo de vozes; em Cassandra Complex com a raridade de escutarmos uma secção de baixos nas vozes; ou, finalmente, em It All Ends Here, onde, de facto, o nível vocal atinge a excelência. Apesar do referido aumento de agressividade, com riffs muito pesados, densos e obscuros, a linha criativa de Arjen Lucassem é perfeitamente identificável. Em Earth That Was, por exemplo, os coros aproximam-se muito do trabalho dos Ayreon. O psicadelismo dos anos 70 também está muito presente, nomeadamente no trabalho de teclados e na influência pinkfloydiana em It All Ends Here. O que realmente acaba por surpreender é alguma tendência doom que pontualmente surge disseminada pelo disco, com especial ênfase em Cassandra Complex ou It All Ends Here. A longa faixa que fecha o disco já foi três vezes aqui referida. E o caso não é para menos porque se trata de uma faixa fantástica que encerra o álbum num elevado patamar de qualidade, se bem que todo o álbum esteja, como é normal com o músico holandês, num nível de excelência só ao alcance de génios.

Tracklist:
1. Down The Rabbit Hole
2. Digital Rain
3. Earth That Was
4. Victim Of Modern Age
5. Human See, Human Do
6. 24 Hours
7. Cassandra Complex
8. It’s Alive, She’s Alive, We’re Alive
9. It All Ends Here

Line Up:
Russel Allen, Damian Wilson, Dan Swano, Floor Jansen, Tony Martin, Mike Andersson, Rodney Blaze – vocais
Arjen Lucassen – guitarras e teclados
Ed Warby – bateria
Peter Vink – baixo
Joost van der Broek – teclados solo
Gary Wehrkamp – guitarra solo

Internet:
http://www.arjenlucassen.com/
www.myspace.com/ayreonauts

Edição:
InsideOut

Review: The Final Frontier (Iron Maiden)

The Final Frontier (Iron Maiden)
(2010,EMI)

Quem já escreveu o seu nome em letras de ouro na história do metal com álbuns como The Number Of The Beast, Powerslave, Piece Of Mind, Seventh Son Of A Seventh Son ou Somewhere In Time não devia já estar a gozar o merecido repouso de uma folgada reforma? Os seis britânicos não julgam isso e, sistematicamente, vão colocando no mercado álbum atrás de álbum. Vantagem: os inúmeros fãs espalhados pelo mundo vão agradecendo e vão tendo mais oportunidades de os verem e reverem ao vivo; problema: os Iron Maiden já não conseguem surpreender ninguém, nem mesmo cativar alguém. Honestidade acima de tudo, neste The Final Frontier até a voz de Bruce Dickinson parece cansada e saturada. Musicalmente temos sempre as mesmas estruturas, os mesmos ritmos, as mesmas melodias, os mesmos inícios calmos com o baixo de Steve Harris onde a única dúvida é saber quando ocorre a inevitável reacção/cavalgada. The Final Frontier acaba por ser mais álbum igual aos últimos, longo (diríamos demasiadamente longo para o seu próprio bem) e que não acrescenta nada de novo. Mas atenção porque o inicio do disco até promete: ritmos tribais com uma dose de electrónica e até algum psicadelismo levam-nos a pensar que os Maiden irão arriscar e criar algo mais contemporâneo. Nada de mais errado. Ao quarto minuto e meio já estamos no mesmo cenário. Mas nem tudo é mau (ou melhor regular, porque dos britânicos nunca nada será mau!). Coming Home é uma fantástica balada, das melhores que o sexteto já escreveu e The Alchemist apresenta um espírito retro que, curiosamente, parece querer recuperar alguma da mística dos álbuns citados no inicio da crónica. Coincidência ou não, falamos dos temas mais curtos do disco. Mas o álbum tem ainda outros bons momentos perdidos nos temas mais longos mas que fazem valer a pena perder algum tempo na sua audição: a secção retro, ao nível de uns Astra, no interior de Isle Of Avalon, os riffs quase Black Sabbath perdidos na longa Starblind ou mesmo o lead melódico da típica cavalgada em The Talisman, neste caso, tipicamente maideniana, é certo, mas dos mais belos leads escritos pela banda. Para o final ficam duas peças que tem tanto de compridas como de enfadonhas. Resumindo, este é apenas mais um disco dos Iron Maiden que, não acrescentando nada de novo, consegue apresentar alguns momentos interessantes. Por isso, enquanto álbum completo esqueçam; mas não percam esses pormenores isolados.

Tracklist:
1. Satellite 15… The Final Frontier
2. El Dorado
3. Mother Of Mercy
4. Coming Home
5. The Alchemist
6. Isle Of Avalon
7. Starblind
8. The Talisman
9. The Man Who Would Be King
10. When The Wild Wind Blows

Line up:
Bruce Dickinson – vocais
Dave Murray – guitarras
Adrian Smith – guitarras
Janick Gers – guitarras
Steve Harris – baixo
Nicko MacBrain – bateria

Internet:






Edição: EMI

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Entrevista com Phenomena


Os mais velhos ainda se devem lembrar da trilogia dos Phenomena editada em finais dos anos 80/inícios dos anos 90. Tom Galley, o principal criador do conceito está de regresso, como sempre, com um conjunto de convidados de superior qualidade técnica. Blind Faith, é já a segunda parte de PsicoFantasy e foi o mote para uma rápida conversa com o Sr. Galley, ele próprio, onde o criador não se esquivou a falar do seu passado.

Porque o regresso do projecto Phenomena após tantos anos?
Após as três primeiras partes de Phenomena tive problemas com meu agente e, posteriormente, com a Parachute Music que havia adquirido todo o catálogo. Nessa altura, deixei de acreditar na indústria musical e tive alguns problemas de saúde que me fizeram andar dentro e fora do hospital por algum tempo. Depois em 2005 sofri um acidente terrível, que me deixou com uma fractura nas costas, mas felizmente durante esse tempo eu encontrei um bom parceiro na pessoa de Khalil Turk da Escape Music que se traduziu no anúncio de uma nova era de sucesso. Infelizmente, em 2008, após uma curta doença Mel faleceu e já não pode participar nos projectos futuros.

Nos álbuns anteriores dos Phenomena os convidados são principalmente da cena do hard rock britânico. Actualmente, é mais um projecto internacional. Como se reflecte isso na sonoridade do novo material?
Como nos álbuns anteriores cada artista traz os seus talentos individuais para a música e eu senti que o álbum precisava de uma perspectiva mais internacional. Usando esses artistas as faixas ficaram com mais ressonância.

E foi fácil ter todos estes músicos a trabalhar num único projecto?
A organização dos artistas foi feita por Khalil Turk, mas a ligação posterior e comunicação com os artistas foi feito pessoalmente por internet e telefone.

Como tem sido a reacção dos fãs antigos e a aceitação dos novos?
As reacções iniciais foram positivas e as avaliações que tenho lido têm sido excelentes. O tempo dirá.

Há alguma hipótese de termos o projecto Phenomena ao vivo?
Estou actualmente a trabalhar numa nova fase deste projecto, uma reminiscência de Phenomena 1 e Psycofantasy, que deverá estar pronto em 2011/12, e esperemos que este projecto seja apresentado ao vivo.

O processo de escrita foi todo da tua responsabilidade? Qual foi a contribuição dos músicos convidados?
Os músicos têm parâmetros para o trabalho, mas eles trazem o seu próprio estilo para as músicas

A história de PsicoFantasy termina agora ou vai ter continuação?
Ela vai continuar de uma forma ou de outra.

Entrevista com PhaZer

Revelations serviu para apresentar os Phazer ao mundo. Após dois anos em tournée, o quarteto voltou a estúdio para registar o seu longa-duração de estreia. O resultado, Kismet, só surpreende que não conhecia o colectivo. Poderoso e simultaneamente belo, Kismet dificilmente será apelidado de mau agoiro, como a tradução do termo turco deixa antever. Pelo contrário será o passo decisivo no crescimento da banda. Paulo Miranda, vocalista, ilustra o novo sentimento Phazer.

Depois das excelentes reacções a Revelations, sentiram alguma pressão na altura de comporem este seu sucessor?
Algumas das músicas compostas na mesma altura do Revelations acabaram por ser arranjadas e incluídas no Kismet. Não sentimos qualquer tipo de pressão para a composição e produção do Kismet, mas sim um enorme desejo de aplicar toda a experiência que ganhámos com o Revelations e sabíamos que tínhamos mais capacidades e ideias para fazermos ainda melhores músicas do que o EP anterior, portanto não sentimos pressão mas talvez entusiasmo ou mesmo excitação!


De que forma é dois anos na estrada se reflecte na sonoridade de Kismet?
Acho que foi determinante. O contacto com os fãs e todo o público que nos viu ao vivo e reagiu às nossas músicas num ambiente despido do estúdio mostrou-nos o lado das nossas músicas que ainda desconhecíamos. Sentir as boas reacções que provocávamos mesmo à nossa frente, completa-nos em relação a todo o trabalho que fizemos em estúdio e compensa todas as dificuldades que encontrámos pelo caminho. O Kismet representa tudo isso, é um disco totalmente dedicado a todo esse espírito com que vivemos durante dois anos, é dedicado aos nossos fãs com a nossa mais sincera gratidão.

Entretanto, também mudaram de baterista. Que efeitos teve essa alteração no colectivo e, principalmente, no processo de escrita?
A entrada do Nelsun foi o elo que até então, faltava na nossa corrente. Com ele, veio uma nova linguagem que enriqueceu as nossas já diversas influências, e também estabilizou a formação da banda e o respectivo processo de composição de novas músicas. Até à sua entrada, o Revelations tinha sido gravado com um baterista convidado (Fred Stone dos Blasted Mechanism) e mesmo durante a Revelations Tour, tivemos algumas mudanças de baterista, isso atrasou a composição de novas músicas e por resultado a entrada em estúdio.
Revelations tinha sido uma edição independente, mas para Kismet há o trabalho conjunto de duas editoras, a Raging Planet e a Raising Legends. Como aconteceu essa união e porquê uma co-edição?
Conhecemos
o Daniel Makosch da Raging Planet através de um amigo em comum na altura do Revelations. A partir daí, ficou a conhecer a nossa demo do Kismet acompanhando a sua produção em estúdio e surgiu então a oportunidade de editarmos através da Raging Planet. A co-edição com a Raising Legends, é uma parceria entre as 2 editoras, sendo a Raising Legends mais focada no mercado do norte e a Raging Planet no do sul.

Sendo que este trabalho está muito orientado para as guitarras e tendo vocês apenas um guitarrista como irão proceder ao vivo?
Sim, este álbum tem uma componente forte de estúdio que não é a mais simples de transportar para concertos, pois temos várias vozes masculinas e femininas, várias guitarras, harmónicas, etc. Para os concertos, sempre que for possível termos músicos convidados, iremos contar com a sua participação. Quando não for possível a sua participação, utilizaremos samples para reproduzir aquilo que humanamente nós os 4 não possamos reproduzir.

Em termos de gravação, como correu todo o processo?
Longo, duro mas divertido e bastante enriquecedor! Longo, porque demorou muito mais do que esperávamos, o trabalho em estúdio acabou por ter uma componente muito forte em termos de arranjos (visto que já tínhamos as músicas compostas), mais do que esperávamos e isso acabou por ser aquilo que nós queríamos. Demos toda a liberdade ao produtor Fernando Matias para mexer nas músicas, contribuir com a sua visão de fora da banda, e podemos dizer que ele teve um papel fundamental para este disco. Duro, porque estivemos praticamente durante um ano em estúdio a ouvir a mesmas 11 músicas, muitas noitadas no estúdio, muito pestana queimada, muitos cigarros fumados. É nestas alturas que o nosso grande amor ao Rock nos aguenta! Divertido, porque felizmente houve sempre bons momentos de descontracção entre a banda juntamente com o Fernando Matias e pontuais convidados, bons momentos de amizade, diversão e parvoíces, o que acabou por ser fulcral naquelas noitadas mais duras de trabalho. Enriquecedor, porque todo o processo de captação e mistura, foi excelente e existiu mesmo puro prazer de quem está a experimentar, testar e criar novas músicas. Vê-las crescer naquele ecrã de computador, com aquelas barras de ondas sonoras é realmente gratificante.

Em Kismet trabalharam com alguns convidados. Querem apresentá-los e adiantar qual foi o seu input ao nível criativo nos temas?
Convidamos a Patrícia Andrade que actualmente colabora com os Moonspell, nos coros femininos ao vivo e que gentilmente assentiu ao nosso convite. Ela participou nos coros femininos da música Serious Killer, com arranjos vocais de Fernando Matias. Tivemos também o privilégio de contar com participação de Ruben “El Pavoni” com a verdadeira alma blues na harmónica na música Fear Itself. E claro alguns amigos nossos para os coros de multidão nas músicas War of Shouts e Kismet. Acho que trouxeram uma riqueza adicional às músicas, completando-as e ficamos muito satisfeitos com o resultado.

O que significa exactamente Kismet?
Kismet significa Destino em turco, embora em alguma literatura esteja associado a mau destino ou agoiro. Este título acaba por resumir e caracterizar toda a temática das letras do álbum, que exploram a condição humana da dualidade, da indecisão, do confronto, das dúvidas, da raiva, do arrependimento, do medo, da revolta, sem nunca se saber qual será o caminho a seguir. A capa do álbum Kismet do Filipe Geier (autor do artwork) acaba por representar isso também, e quanto a mim, é uma capa que conseguiu captar brilhantemente a essência lírica e musical de todas as músicas deste álbum.

Na faixa que baptiza o disco notam-se algumas influências árabes. Qual o seu significado e porque a sua inclusão?
De facto a música ficou com esse ambiente árabe, apesar de os acordes serem de base Flamenco. Em relação ao discurso árabe da introdução, foi especialmente difícil encontrarmos o que nós queríamos, visto que nenhum de nós sabe falar árabe. É uma passagem do Corão, que mais à frente na música é declamada parte dela em inglês por mim, onde é então dito que os infiéis serão perseguidos mesmo que se escondam em torres altas e fortes. É uma passagem que espontanea e popularmente costumam associar ao acontecimento de 11 de Se
tembro, o que nos agradou exactamente por isso e acreditamos que veio enriquecer a letra e música.

O disco fecha com uma peça clássica. Já Revelations tinha tido esse pormenor. Será uma característica para manter? De que forma é que o classicismo interfere no processo criativo nos PhaZer?
Tivemos alguma hesitação na sua inclusão no Revelations, no Kismet já não houve qualquer dúvida. Acho que mostra um lado diferente de PhaZer, que é real. Nós ouvimos muita música de géneros diferentes, e este momento, que é um momento do Gil Neto, representa não só isso, mas quase como uma forte dedicatória às raízes do seu instrumento e aos grandes Guitar Heroes dos anos 80 e 90. E acaba por ser uma história contada pelo mesmo Gil das 10 músicas anteriores mas de forma diferente e mais íntima. Se é para manter no próximo disco, não sabemos ainda. Se acharmos que faz sentido, porque não?

Como tem sido a reacção por parte dos fãs e da imprensa a Kismet?
Tem sido bastante boa, nós gostamos muito deste disco e acreditamos que ele é de facto uma evolução do Revelations, mas nunca sabemos como será a reacção das pessoas e da imprensa. E até agora, temos ficado totalmente surpreendidos com o feedback dos fãs e da imprensa e dos contactos que recebemos. As criticas têm sido de facto fantásticas e esperamos continuar a receber mais.

E estrada? Já estão em fase de promoção do disco? E que mais apresentações ao vivo já estão agendadas?
Sim, estamos já a fazer agendamentos para iniciar a promoção ao disco a partir do próximo mês (Novembro) e durante o próximo ano 2011. Actualmente temos já confirmadas as seguintes datas:
· 05-11-2010 – Side B (Benavente);
· 12-11-2010 – A Sala (Cacém, Sintra);
· 13-11-2010 – FNAC Cascais – Showcase Acústico;
· 17-12-2010 – In Live (Moita);
· 18-12-2010 – Renhau Renhau (Costa da Caparica, Almada).