Entrevista: Ashes

Pegar na história de Alice no País das Maravilhas e a partir dela construir um álbum de metal pode parecer, à primeira vista, uma ideia arriscada. Não o consideraram assim os Ashes que assim, cinco anos após o seu EP de estreia, regressam às gravações e apresentam Ecila, um trabalho onde a criatividade e originalidade são os principais traços. A banda de Tomar juntou-se para compartilhar com Via Nocturna todas as emoções que rodearam o nascimento deste agradável trabalho.



Viva! Cinco anos em silêncio no que diz respeito a edições discográficas. O que andaram os Ashes a fazer?
Olá! Bem, parecendo que não, fizemos bastantes coisas. Após o EP de 2007 houve o seu período normal de divulgação e actuações ao vivo, sensivelmente durante dois anos. Mas nós nunca paramos de compor, e com o que começou a surgir nos ensaios começámos a pensar no que iriamos fazer para um próximo trabalho. Foi aí que iniciamos todo o processo de criação do Ecila. Entretanto também acolhemos um novo membro na banda numa troca de baixistas. A partir daí, foi compor e compor arduamente, limando todas as arestas das músicas que iam fazer parte do álbum. Depois veio a fase de gravações no estúdio, pós-produção, organização das tarefas e objetivos que queríamos cumprir e muitas burocracias até o álbum estar finalmente cá fora. Isto sempre sem deixar de marcar presença em alguns concertos, que também não conseguimos parar de tocar ao vivo.



Ou seja, pelo que me pude aperceber pela leitura do vosso press release, estiveram ocupados com atuações e participações em concursos. Como vêm esse tipo de competições entre bandas nesses concursos?
Não dizemos que não a participar em qualquer bom evento, mas actualmente já passámos um pouco a fase dos concursos. É verdade que são uma boa oportunidade tanto para mostrar o nosso som a mais público, como também para testar melhor o seu impacto. Mas por mais apelativos que sejam, por vezes perdem a sua piada, porque vemos várias bandas - algumas das quais somos amigos - a competir, o que cria uma certa tensão no convívio das mesmas. É um pouco injusto e também ingrato termos de competir seja sobre o que for em concursos, principalmente quando as bandas são muito diferentes entre si. De qualquer modo foram experiências muito enriquecedoras a vários níveis.



E os Ashes tiveram sempre participações meritórias, certo?
Felizmente sim. Quer dizer, não diríamos sempre, que há aquele ou outro que não corre tão bem, mas a verdade é que até correram melhor do que esperávamos. Como temos um som algo peculiar, ficámos muito contentes por ter sido tão bem aceite e elogiado.



Deixando o passado, concentremo-nos em Ecila. Este é um álbum conceptual baseado na história de Alice no País das Maravilhas. De que forma é feita a transcrição da história para os vossos conceitos lírico e musical?
Por acaso até foi mesmo a própria música que deu o mote para iniciarmos o conceito do Ecila. Quando estávamos a compor livremente, sem qualquer conceito em mente, reparámos que estávamos a criar temas um pouco mais soturnos que o habitual e, de certa forma, mais complexos e ricos em pormenores. Tanto que achámos por bem criar um fio condutor para esses temas, e acabámos por nos inspirar na história do Sr. Lewis Carroll, dando-lhe um ligeiro twist. Tal acabou por funcionar bem, porque as ideias que apareciam quase sugeriam pequenos diálogos entre personagens diferentes devido às constantes alterações que certos temas tinham. Daí começámos a desenvolver versões mais mórbidas de alguns dos personagens de Alice, e demos-lhes a nossa própria cunha.



E de que forma cinco anos se refletem na vossa forma de compor e interpretar?
Cinco anos é bastante tempo, como podes calcular. As pessoas mudam, o mundo muda, e tudo isso se reflecte na composição. Se bem que nós mantemos um estilo de base já desde a altura do nosso EP de 2007, quisemos subir a fasquia um pouco no Ecila. Puxámos por mais experimentalismo, passámos muito tempo a explorar novos conceitos e tivemos uma grande preocupação com os detalhes que se calhar algumas pessoas só se aperceberão após ouvirem algumas vezes os temas. Cremos que crescemos na direcção que desejávamos. Aproveitamos para adiantar uma curiosidade: os temas do Ecila, que contam uma história em seis capítulos, foram ficando finalizados precisamente pela ordem que estão no álbum. Assim, estes contam a história do álbum, mas de certo modo também a nossa. Entretanto, e mesmo antes do Ecila sair, já iniciámos novos temas que têm uma outra sonoridade. A evolução não pára.



Um dos elementos preponderantes na vossa sonoridade é o violino. Este não é usado como frequentemente costuma ser, na minha opinião. O termo excêntrico é vosso e parece-me que se adapta bem…
Essa foi uma descrição que nos fizeram do uso do violino e adorámos. Realmente a nossa ideia para o violino foi não fazer dele aquele instrumento de solos e apoio a refrões. Deveria ser encarado como um qualquer instrumento de cordas, como uma guitarra ou baixo. Com a sua função própria é claro, mas digamos que sem tratamento especial. E o curioso é que por nós acharmos que este deve ser encarado como um instrumento qualquer isso torna o seu uso excêntrico…



The Kind Of Strange foi o primeiro single extraído do álbum. Porque escolheram este tema em particular?
Na verdade tivemos algum tempo a tentar decidir que tema seria o single. O que é bom, quer dizer que não conseguimos destacar logo à partida um deles, atingindo um dos objetivos da banda que era não fazer temas que não nos satisfizessem na totalidade (os chamados “temas para encher chouriços”). Já estávamos nós perto do lançamento do álbum e não tínhamos uma decisão, até que surgiu a oportunidade de nessa altura colocarmos um tema na compilação da Infektion. E de repente, para todos, a The Kind Of Strange pareceu-nos o tema ideal: é um tema com impacto, com uma construção interessante, diferente, que passa por diversos momentos. Característico de Ashes, dispõe algum do experimentalismo a que nos dedicámos e reflecte bem o ambiente do álbum. Ao vivo era um dos que causava melhor resposta do público. E assim foi, e parece-nos que foi uma boa escolha.



Como decorreu o processo de gravação do álbum?
Muito bem. Antes de irmos para estúdio preparámos tudo o melhor que podíamos, para otimizar o tempo. Mas mesmo assim, há sempre retificações a serem feitas, e nisso tivemos uma grande ajuda do Pedro Carvalho do Zero Estúdio, que foi o timoneiro ideal das gravações do Ecila. Sempre com uma paciência de santo esteve lá ajudar-nos ao máximo, fez bem mais do que era a sua obrigação e isto tudo sempre num óptimo ambiente. Acho que a única coisa negativa que podemos apontar foi ter levado bem mais tempo do que contávamos, mas somos apologistas que mais vale fazer as coisas devagar e bem.



Este é um trabalho em formato independente, como já havia acontecido com a vossa estreia. Ainda assim, verificou-se alguma mudança em relação à forma como ambos os trabalhos foram produzidos e/ou distribuídos?
Na produção são completamente diferentes. O EP foi totalmente self-made e íamos aprendendo muita coisa à medida que o íamos fazendo. No Ecila decidimos que era merecedor de um tratamento mais cuidado, com gravação, mistura e masterização em estúdios profissionais. Optámos também por um artwork mais elaborado de modo a ser um complemento à música do álbum, que ficou a cargo do nosso amigo fotógrafo Jaime Veloso. A ideia na distribuição no Ecila era desta vez não ser uma edição de autor mas infelizmente à última da hora a nossa parceria teve problemas e falhou essa parte. Para não perdermos mais tempo do que já tínhamos perdido decidimos avançar novamente com a edição de autor, mas desta vez mais organizada e com algum apoio externo, como de algumas lojas por exemplo. Mas ainda vamos a tempo de arranjar um outro tipo de distribuição.



Dada a qualidade apresentada, já tiveram contactos de alguma editora tendo em vista uma possibilidade de associação ou não?
Obrigado pelo elogio. Até agora não tivemos nenhum contacto. De que estão à espera? (risos) Mais a sério, isto não é um meio fácil, nem nós temos um som que encaixe bem num certo estilo. Mas nós acreditamos que essa é uma vantagem nossa, e vamos ver se em breve poderemos ter novidades neste aspecto.



Há já projectos para um processo de internacionalização dos Ashes? Ou seja, há alguma possibilidade de Ecila ter uma distribuição alargada a outros mercados?
Continuando as respostas anteriores, vamos ver o que nos reserva o futuro neste aspecto. Para já sentimo-nos confortáveis a fazer toda a distribuição do álbum.



Como está a ser a apresentação do álbum ao vivo? O que está planeado?
Para já está a ser muito bem recebido, o que nos deixa imensamente satisfeitos. Já demos alguns concertos na zona centro do país, fizemos a apresentação oficial na nossa cidade de Tomar e os planos são arranjar mais concertos noutros centros urbanos como Lisboa, Porto, Coimbra, etc. E mais tarde, atacar o estrangeiro também. Neste momento queremos mesmo tocar o mais possível para divulgar o nosso trabalho.



A terminar, querem acrescentar algo que ainda não tenha sido abordado?
Antes de mais, agradecer a oportunidade concedida pela Via Nocturna e saudar o bom trabalho que faz na divulgação da música nacional. Para finalizar, convidar todos a conhecer o nosso trabalho, a visitar a nossa página ou facebook, mas principalmente a passar nos nossos concertos, pois pensamos que é aí que demonstramos o verdadeiro potencial dos Ashes.

Comentários