sexta-feira, 1 de junho de 2012

Entrevista: Holocausto Canibal

Seis anos sem originais não foram seis anos em silêncio. Z. Pedro, Eduardo F. e Diogo P., esclareceram Via Nocturna a este respeito e fizeram a apresentação do que se pode ouvir em Gorefilia, o novo trabalho dos cada vez mais bizarros Holocausto Canibal.

O novo álbum, Gorefilia, já está aí. O que nos podem adiantar em relação a esse lançamento? Aparentemente algumas mudanças em termos sonorosa e líricos…
Eduardo F. - O que foi variando ao longo dos álbuns foi sem dúvida a abordagem a essa mesma sonoridade. Estamos em crer que o Gorefilia consegue equilibrar e consolidar essa sonoridade com melhor qualidade, senão vejamos: temas relativamente curtos e diretos à semelhança do Gonorreia Visceral, o aspeto mais groovy começado no Sublime Massacre Corpóreo, uma aura mais negra abordada no Líbido Dispareunia e uma maior complexidade estrutural atingida com o Opusgenitalia. Estes ingredientes que foram surgindo e evoluindo no seio da banda consolidaram-se neste último álbum e claro que a evolução do line-up também contribuiu para essa estruturação que, apesar de poder não parecer, não foi pensada mas sim resultado da convivência na sala de ensaios e ao vivo. Claro que as referências de clássicos do death metal e do gore grind permanecem, todos nós temos os nossos "clássicos". Em termos líricos é que poderá notar-se mais essa homenagem, talvez devido ao carácter conceptual de todo o álbum e à incursão por temáticas mais obscuras, mas se existe essa homenagem é feita de forma inconsciente.

Z. Pedro - A componente lírica deste álbum é uma viagem conceptual sobre parafilias, desvios comportamentais, padrões sexuais atípicos, amor bizarro... culminando muitas das vezes o processo, no habitual tingir do esperma por sangue. Sempre me interessei por esta temática. O número de parafilias existentes sofre atualizações constantes e por vezes chego à conclusão que existe uma parafilia possível para quase tudo! Depois de alguns álbuns a sorver da fonte patológica, forense, cirúrgica, anatómica… e mais recentemente ter estado aprisionado na temática genital, impunha-se uma mudança de conteúdos. Claro que a construção de cada conceito de álbum é antecedida por bastante pesquisa e leitura. Muitas das vezes o bloqueio causado pelo papel em branco exerce a sua influência, mas quando a fluidez criativa é finalmente despoletada, os textos surgem de forma bastante natural e espontânea. Curiosamente todas as letras do anterior Opusgenitalia eram consideravelmente mais densas e complexas e foram escritas em poucos dias, desta vez embora tenha havido uma simplificação intencional, no sentido de torná-las mais directas, o processo foi consideravelmente mais moroso. Acho que no Gorefilia podemos assumir que pela primeira vez temos refrões orelhudos nos nossos temas, passíveis até de serem cantados ou vociferados pelo público. Desta vez cinco letras não são da minha autoria o que contribui obviamente para uma maior diversidade! Começando pelo David Soares, sempre fui um consumidor da sua obra desde o Mostra-me a tua Espinha e sempre me ocorreu que um dia ele nos pudesse ceder alguma da sua escrita para Holocausto Canibal. Poder usufruir na Acrotomofilia Zoófila da sua minúcia e morbidez descritiva, sempre patente nos seus contos de terror, é algo que muito nos orgulhamos e podemos desde já avançar que esta colaboração não termina com o Gorefilia! Em relação ao Charles Sangnoir [La Chanson Noire], que contribuiu com a Putrescência Necromântica, revelou possuir uma mente [provavelmente] mais rebuscada que nós próprios e não podíamos de forma alguma abdicar dos seus escritos. Quanto ao Fuse, não só escreveu a Supremacia Carnívora e a Vorarefilia –Antropofagia Auto-Infligida II, como fez ainda um tema de raiz, Fascínio Paradoxal, que por toda a negritude e força que transporta conquistou naturalmente a posição de fecho do álbum.

Trata-se do vosso primeiro trabalho de originais em seis anos. Alguma razão para este hiato?
Z.Pedro - Um hiato editorial de 6 anos pode fazer crer que estivemos apaticamente ligados ao ventilador, mas na verdade acabou por ser um dos períodos mais prolíferos a nível de edições e entradas em estúdio do nosso percurso. Gravamos temas para mais de 10 tributos e split CD’s dos quais se destacam: Cock and Ball Torture, Carcass, Gut, Dead Infection, Blood, Malignant Tumour, Mata-Ratos, etc… alguns já editados outros ainda a aguardar edição. Editamos o Visceral Massacre Memorabilia [que para além da reedição dos dois primeiros álbuns Gonorreia Visceral e Sublime Massacre Corpóreo incluiu ainda alguns inéditos e tivemos efetivamente uma boa agenda internacional possibilitada pelo anterior Opusgenitalia. Outro grande consumidor de tempo e causador de incompatibilidade, deveu-se à edição de álbuns de estreia por parte de elementos comuns a bandas paralelas e em particular à grande atividade ao vivo de Grunt pela Europa. A culpa em parte também foi dos promotores que continuaram sempre a convidar-nos para os seus eventos, mesmo sabendo que o nosso alinhamento não iria diferir muito da anterior vez que lá tocamos… e deixar assim que ruminássemos o nosso live set para lá do desejável. Se alguém tivesse dito: “Basta! Agora só cá voltam com temas novos!”, seguramente já tínhamos saído da hibernação editorial há mais tempo. Agora o objetivo é voltar a ter um ritmo de lançamentos mais prolífero e célere tal como nos primórdios da banda.

Diogo P. - A mudança de formação foi sem dúvida um dos principais fatores que contribuiu para esta demora. O line-up atual está no ativo desde 2009 apenas e envolveu todo um processo de aprendizagem, consolidação e estabilização que muitas vezes foi mais complicado que o que parece. Seria negar o inegável se disséssemos que as alterações de formação não contribuíram para a já muitas vezes referida “mudança de sonoridade”, contudo continua a ser HC no seu núcleo. Com o passar do tempo e desde que se estabeleceu esta formação não só tentamos aprimorar a música como banda como também tem havido um longo e árduo trabalho individual no sentido de melhorar as nossas performances como músicos. Todo esse trabalho de casa, a convivência com outros músicos quer em concertos quer noutras formas de contacto acaba por contribuir positivamente para a evolução da banda. Somos uma entidade coletiva e quando há evolução individual isso reflete-se no grupo e por aí em diante.

Este será um lançamento internacional através da Xtreeme Music. Como se processou esse contacto?
Z.Pedro – Em inícios de 2009 fechamos contrato com uma editora através da qual era suposto editarmos o Gorefilia. Após alguns incumprimentos contratuais por parte da editora seguimos o impulso de procurar um novo selo para lançar este álbum, mas na verdade acabamos por encontrar 3!Decidimos prospetar todo o mercado existente, desde micro editoras sul americanas até gigantes da indústria musical. No total surgiram inúmeras propostas de edição, algumas delas com ofertas bastante modestas é certo, mas todas elas contribuíram para nos sentirmos orgulhosos por todo o interesse demonstrado na banda. Quanto a termos duas edições distintas, a internacional via Xtreem Music e a Raising Legends/Raging Planet em território nacional, foi principalmente por termos sentido no passado algumas lacunas a nível de distribuição e promoção por cá e a necessidade crucial de colmatar essas falhas com este álbum. De referir que as edições serão inteiramente distintas, mesmo a nível de apresentação/formato. A opção pela Xtreem Music acabou por ser bastante óbvia! Em 1997 aquando da formação de Holocausto Canibal, bandas como Incantation, Vader, Deranged, Immolation, Deeds Of Flesh… para além de serem uma influência indireta na nossa sonoridade, tinham também em comum o facto de terem editado trabalhos pela mítica Repulse Records. Esta editora viria a dar origem anos mais tarde à Xtreem Music, que continuou manter bem viva a música extrema ao longo de mais de 100 edições! É portanto para nós uma grande honra e orgulho fazer parte deste incontornável legado de Death Metal!

Eduardo F. – …E para nós reveste-se também de grande importância, termos um conhecimento prévio dos responsáveis pelas editoras com as quais negociamos. Já conhecemos o Dave Rotten [Xtreem Music A&R] há mais de uma década. Partilhamos por diversas vezes palcos de festivais internacionais, já tendo inclusivamente participado nalguns temas nossos ao vivo.

Como referiram, em solo nacional trata-se de uma parceria entre a Raising Legends e a Raging Planet numa edição diferente da internacional Em que consistirão essas diferenças?
Z.Pedro - A edição nacional a cargo da Raising Legends/Raging Planet é em formato digipack e o encarte terá algumas secções adicionais em relação à edição internacional da Xtreem Music que tem um aspecto intencionalmente mais old school. Ambas as edições irão conter um extenso booklet de 16 páginas onde para além das letras e todos os outros conteúdos habituais figuram também imagens alusivas a cada uma das parafilias abordadas.

Este é um disco que conta com alguns convidados de peso. Podes apresentá-los? E que papel desempenharam na estrutura final dos temas?
Diogo P. - As diferentes colaborações foram fruto do nosso percurso dos últimos anos - as amizades estabelecidas, as opiniões ouvidas e acima de tudo uma prova do reconhecimento que nos é dado na música portuguesa. As diferentes colaborações contribuíram com cor e textura, tornando o Gorefilia num álbum multidimensional, algo diferente da habitual chapa 3 death metal/grind. Enriqueceram o produto final também numa perspectiva de composição, pois abrimos o nosso leque de ferramentas e sonoridades, algumas delas introduzidas já durante o processo de finalização e em muitos outros cenários. A contribuição de terceiros nas letras permitiu-nos dar outra roupagem aos temas, a introdução de samples permitiu distanciar-nos da sonoridade passada [em que já utilizávamos introduções nos temas] na medida em que foram trabalhados propositadamente para e com a música, a introdução de vozes convidadas quebrou a monotonia do "grunho" e do álbum e até tornando o álbum mais pesado e metálico do que aquilo que seria de esperar. Curiosamente ou não, o Fuse de Dealema terá contribuído com a dimensão mais negra do álbum e isso só prova que podemos aventurar-nos noutros espectros musicais mantendo a nossa identidade e absorvendo uma série de elementos que só nos melhoram como músicos, indivíduos e como banda. As restantes participações estiveram a cargo de: Max Tomé [Colosso], Nuno P. [ex-Holocausto Canibal], Fabrice Costeira, Miguel Newton [Mata-Ratos] na Goree Gajas, Nocturnos Horrendus [Corpus Christii] na Orifícios e Conde de Samodães na Objectofilia Platónica.

Como decorreu o processo de gravação de Gorefilia?
Z.Pedro - A captação do álbum decorreu nos Estúdios213, do produtor Bruno Silva (Grunt, Heavenwood). Acabou por ser uma escolha bastante espontânea e natural visto já termos gravado alguns dos temas para tributos e splits neste mesmo estúdio, sabíamos portanto que todo o processo de gravação iria ser bastante fluído e que a nossa química com o produtor seria muito boa e essa é sem dúvida uma das características que sempre consideramos cruciais aquando de uma escolha final. Já a mistura e masterização ficou a cargo da conhecida dupla de produtores polacos (Wojtek e Slawek) responsáveis pelos míticos Hertz Recording Studios. Sempre nos identificamos com produções verdadeiramente avassaladoras de bandas como Behemoth, Decapitated, Vader, Severe Torture etc e já há bastante tempo que queríamos recorrer ao Hertz. Como desta vez o budget editorial para gravação o permitiu, conseguimos finalmente concretizar esse antigo objetivo. Lembro-me que durante umas férias que os Dead Infection passaram connosco em Portugal, termos perguntado como tinha sido gravar o Brain Corrosion nos Hertz e todas as referências que nos deram sobre o método de trabalho usado e o entusiasmo com que o fizeram foram excelentes, pelo que desta vez não podíamos mesmo deixar passar esta oportunidade. Agora corroboramos tudo o que nos tinham transmitido e achamos notável a forma como compreenderam e assimilaram o nosso som e nos proporcionaram indubitavelmente a produção mais forte da nossa discografia, sem no entanto descaracterizar a personalidade de Holocausto Canibal.

No final de 2011 estiveram a recrutar Cannibal Girls para o vosso primeiro vídeo. Como correram os castings? E que nos podes dizer do resultado final?
Z.Pedro – Em Outubro foram feitos alguns castings e escolhidas algumas localizações. Posteriormente analisámos alguns guiões e story boards que foram gentilmente elaborados a pensar em nós e começamos há semanas a gravar os videoclips. Na verdade serão realizados vários e estou em crer que mais uma vez o universo bizarro estará bem presente. Em 15 anos nunca tivemos nenhum por isso queremos que o primeiro seja especial, como uma primeira vez. Consideramos que a época e a evolução tecnológica que estamos a viver é a mais propícia para tal, por isso estamos a levar as coisas com calma e precisão tal e qual um desfloramento deve ter.

A terminar, o que temos em termos de concertos para os próximos tempos?
Eduardo F. - Intencionalmente queremos que o álbum respire um pouco e tenha a maior audição possível antes de o começarmos a apresentar ao vivo. Para já em promoção ao Gorefilia materializamos em abril: dia 25 – Barroselas [concerto especial com uma Banda Filarmónica], dia 30 – Barroselas - XV SWR Fest. Em maio: dia 5 – Lisboa – Jurassic Fest, dia 19 -Porto – Apresentação Gorefilia. Os próximos serão: em junho: dia 01 – Salamanca –Espanha, dia 02 – Palencia – Brutologos 2012 - Espanha, dia 08 – S.P. Sul - Areeiro Open Air, dia 29 – Guimarães – Mass Execution Fest. Contudo muito mais datas estão neste momento a ser negociadas e serão anunciadas em breve no nosso site www.holocaustocanibal.com. Fiquem atentos! GRIND ON!!!

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