quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Entrevista: Aires Ferreira

Depois do intenso Ruína (2009) Aires Ferreira está de regresso com Mania para espalhar a palavra e levar ainda mais longe o seu manifesto de terrorismo cultural. Perigoso, incómodo e até chocante, Aires Ferreira volta a abrir o seu mundo a Via Nocturna. Um mundo feito de palavras que seguem um caminho diferente do que já foi feito e onde nem sequer falta um verdadeiro néctar dos deuses.

Olá Aires, tudo bem? O que tens feito neste último ano e meio desde a última vez em que conversámos?
Ora viva meu caro! Cá vamos, e por Moimenta? Têm sido tempos caóticos, de muita produtividade mas também de muitas interrupções, porque afinal de contas, também tenho de encher o bandulho como toda a gente. Mas fiz o que faço sempre: escrever, pensar, aprender e perder a paciência com a humanidade.

Sei que está em preparação um novo trabalho teu, Mania. O que nos podes para já adiantar a seu respeito?
Na verdade já está pronto há algum tempo. Tive foi uma série de dificuldades para o conseguir produzir. Sempre quis um disco torto mas feito nas mais direitas linhas. E soar mal soando bem não é para todos os produtores. Graças aos deuses o meu caro Charles Sangnoir interveio, e como já é de seu costume, tirou-me da merda para irmos esculpir uns diamantes.

Para este registo o processo criativo foi o mesmo ou alteraste a tua forma de trabalhar/criar?
Palavra d'honra que não me lembro de ter feito rigorosamente nada neste disco. Ou seja, lembro-me de escrever as palavras e de passar horas a fazer as músicas, mas a maior parte do tempo estava bastante...  longe. Sinceramente estava a considerar terminar por cá a minha estadia, o que deu à coisa um honesto sentimento de “vamos lá fazer mais um e morrer no dia a seguir”. Fez toda a diferença.

Desta vez voltas a ter apenas uma edição digital ou haverá também algo físico?
Mais uma vez era suposto existir uma edição física mas custa-me mesmo ver boa gente perder dinheiro comigo. Chegará o dia em que as minhas coisas estejam em formato físico e decente, mas por agora, tenho muita pressa. A coisa assim chega mais depressa, mais rapidamente, etc. E quem quiser ajudar pode sempre comprar uns mp3 no site da Necrosymphonic, que ao contrário de outras editoras, paga-me tudo direitinho.

E em termos de gravação, como decorreu todo o processo?
Foi uma insanidade do primeiro ao último minuto. Ninguém esteve sóbrio porque o trabalho começava logo a seguir a uma cura da cura da noite anterior. Enfim, achei impressionante o Sangnoir ainda conseguir mexer em todos aqueles botões e afins. Isto para a voz, que foi o que fizemos em conjunto. Antes disso eu tinha criado as músicas no meu estúdio, tendo seguido para o covil do Charles para ele fazer a sua magia. No fundo, e tendo em conta que os temas Asco e Revelação também foram gravados em estúdios diferentes, ele fez um autêntico milagre sonoro.

Assim, em jeito de resumo em que difere este teu novo trabalho de Ruína?
Basicamente vai depender de quem ouve. Musicalmente não poderiam ser muito mais afastados, mas o que faço está longe de ser apenas a música. Quem for inteligente, percebe, pelo menos, a ideia. Mas também tenho noção que vai ficar muita gente “à pesca”. Creio que no Mania passo menos tempo a falar de mim para falar nos outros. Explico-lhes, no fundo, o motivo de os últimos anos estarem a custar a engolir. Quais são os problemas e as soluções. Aliás, agora que penso, até devia receber um prémio qualquer pela filantropia inerente! Mas sim, já me podem dizer que sou vendido e que “o primeiro é qué bom!”, porque o MANIA, ao contrário do Ruína, quer mesmo infernizar encarregados de educação e ser o mais populista possível. Rendi-me ao pop-chula, como diria o outro.

Este volta a ser um lançamento da Necrosymphonic, certo?
Era o que fazia sentido. Perdi a pouca paciência que tinha para certos aspetos inerentes à “arte” e a Necrosymphonic é um raro exemplo de competência. Não iria lançar este disco por qualquer outra editora, sinceramente.

Neste novo trabalho tens as participações especiais de Charles Sangnoir e de Vilkacis. De que forma se concretiza a sua participação e como surgiu a hipótese/oportunidade de poderes contar com eles?
E do Pestilens, de Penitência! Antes de mais, são facilmente os músicos que mais admiro em território nacional. La Chanson Noire devia passar em horário nobre no canal um, Ars Diavoli é um daqueles raros projetos que ultrapassa barreiras musicais e chega a ser perigoso só de ouvir e claro, Penitência, que já deveria ter sido reconhecido como a melhor coisa que aconteceu ao Black Metal português desde da “Era do Abutre”. E tenho a sorte de os ter aos três como amigos. O Sangnoir foi escolha óbvia para Vossa Senhora de Fátima, até porque já tinha pensado nele assim que criei o tema. Com o Pestilens e o Vilkacis, pedi-lhes para criarem um tema mediante um texto meu e o resultado, como eu já imaginava, é dilacerante.

Recentemente lançaste também um trabalho (CD+Livro) com a Tertúlia dos Assassinos. Podes falar-nos deste projeto?
Posso pois! É daquelas coisas que se faz com a nítida ideia que daqui a dez anos, se cá estivermos, será muito bom de relembrar. Sou eu, o David Soares, o Gilberto Lascariz e a encantadora Melussine de Mattos, sempre acompanhados ao piano por Herr Charles Sangnoir (que teve a ideia e que muito fez para a materializar, aliás). Basicamente o objetivo é tornar a palavra perigosa; deixar o tra-la-la e passar a coisas sérias. A arte deveria testar os limites da realidade, não tornar a sociedade num monte de merda com açúcar. Já nos estreamos em Cascais e como esperava, fomos recebidos num misto de júbilo e choque. Incomodamos. E é essa a ideia.

E a respeito dos outros projetos onde estavas envolvido. Também há alguma novidade?
Sinceramente tenho discos prontos a editar, mas aprendi com o Mania a ter mais paciência. Com o grau de complexidade de algumas coisas que fiz, tudo pode ficar comprometido com a produção, por exemplo. Mas a seu tempo lá haverão de aparecer.

Pude também reparar que estiveste na apresentação de dois livros (Falosofia e Spabilanto). Como surgem essas oportunidades da tua participação nestes eventos e qual é, afinal, o teu papel?
Foi uma inesperada mas agradável surpresa. Fui ver uma excelente peça do Teatro Hedonista, e o Bruno e a Fátima convidaram-me a mim e à Alexandra para dizermos uns textos dos livros. Foi uma noite magnífica de dois seres que se vivêssemos num país de gente sã, seriam facilmente reconhecidos como do melhor que o teatro e escrita nacionais têm para oferecer. 

Em termos de escrita, que nomes nacionais mais admiras ou que nomes da nova geração aconselharias aos nossos leitores?
Sem dúvida, os dois exemplos acima. De resto eu leio muito pouco; deixei de procurar e vou lendo o que o “destino” me trouxer às mãos. Rui Alberto Costa, no entanto, é e será um colosso, na minha humilde opinião.

Um dos projetos que me falavas anteriormente era de spoken word em inglês. Chegaste a experimentar?
Cheguei sim senhor. É um dos tais discos prontos que está na gaveta. Mas vou aparecer como convidado no novo de Ashes of Hash a dizer umas coisas em inglês e se algum dia surgir oportunidade de lançar o que fiz, também sairá cá para fora.

A terminar, ainda não tiveste oportunidade de vir a Moimenta da Beira, mas espero que tenhas continuado a beber Terras do Demo (risos)…
O pior é que o Terras do Demo é mesmo um dos meus preferidos! O fígado e os rins é que já não me deixam matar a sede como deve de ser, mas não dispenso um bom TD! Ah, e não fui, mas hei-de ir! Quer queiram, quer não!

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