Entrevista: Erik Norlander

De uma assentada a Think Tank Media coloca cá fora dois packs luxuosos de Erik Norlander, cada um deles com duplo CD áudio e DVD. The Galactic CollectiveDefinitive Edition e Live In Gettysburg – é uma verdadeira obra de colecionador apresentada pelo mago do rock progressivo fortemente sintetizado. Orgulhosamente, Via Nocturna apresenta a entrevista que o brilhante músico norte-americano nos concedeu.

Antes de mais, obrigado por perderes algum tempo a responder a Via Nocturna. A Think Tank Media quase simultaneamente lançou dois packs CD/DVD, The Galactic Collective. Foi uma ideia da editora ou tua?
É um prazer ter esta conversa. The Galactic Collective é a realização de um conceito que eu tinha há muitos anos, onde eu poderia juntar a minha música instrumental favorita de mais de 15 anos de álbuns já produzidos e re-imaginá-los dentro de uma única produção, nova e unificada. A minha ideia original era apenas fazer uma versão de estúdio onde iríamos lançar um CD single com novo material, juntamente com um DVD das sessões de estúdio como "ao vivo no estúdio" com vídeos de todas as músicas. Mas essa ideia rapidamente se transformou em 2 CDs de áudio, uma vez que gravamos mais nas novas sessões de estúdio do que poderia caber num único CD. Para o primeiro CD, tive que editar partes de algumas das canções para abreviá-las e tive que cortar completamente a nova gravação de Space: 1999. Portanto, tivemos que adicionar um segundo CD para caber tudo e isso foi muito importante para mim. Isto tornou-se na The Galactic Collective: Definitive Edition. Para o álbum ao vivo, The Galactic Collective: Live In Gettysburg, isso tornou-se possível depois de a banda ter sido convidada para tocar algumas datas ao vivo nos EUA em 2010-2011. Muitas pessoas ouviram as novas gravações e viram no YouTube previews que tínhamos postado e realmente queriam ver a banda ao vivo. Todos ficamos felizes em tocar - todos nós amamos tocar ao vivo. Então, fomos convidados para tocar no Rites Of Spring Festival em Gettysburg, na Pensilvânia em 2011 e esta tornou-se a oportunidade perfeita para gravar um DVD ao vivo. Eu já tinha tocado nesse festival duas vezes antes e eles sempre me receberam num ambiente de teatro agradável. Esse tipo de ambiente é realmente ideal para esta música. Eu já toquei muitos shows ao ar livre e em clubes e podem ser divertidos, mas não têm a mesma atmosfera e "formalidade" de um concerto de teatro agradável. Então isso deu-nos o Live in Gettysburg! Quanto ao lançamento em simultâneo, foi porque demorei muito mais tempo para terminar a versão de estúdio, a Definitive Edition, do que esperava. Na altura em que estava a trabalhar nele, a edição do vídeo para Live in Gettysburg estava quase completa. Por isso pensei que seria ótimo lançar os dois produtos juntos, como um conjunto, um em estúdio, outro ao vivo... perfeito!

Na tua opinião, quais foram os principais objetivos com estes lançamentos?
Essa é a pergunta perfeita com uma resposta muito simples: o objetivo destas duas versões é apresentar as minhas obras instrumentais favoritas numa coleção completa e coesa. Eu poderia ter feito um Best Of, juntando apenas as gravações originais de todas as músicas, mas teria uma sensação e um humor muito diferente que esta completa re-imaginação. Um Best Of certamente teria sido muito mais fácil (e muito mais barato!) de fazer, mas eu nunca fui pelo caminho mais fácil.

Estás sempre rodeado por uma impressionante quantidade de teclados e sintetizadores. Qual deles é o teu favorito?
Isso é como perguntar a um pai qual dos seus filhos ama mais. Mas tudo bem, eu posso responder-te. Um companheiro estável ao longo da vida é certamente o Minimoog Modelo D, o famoso Bob Moog dos anos 70, instrumento que revolucionou não só rock progressivo, mas a música em geral. Nos anos mais recentes, isto é, os últimos 10 anos, o Andromeda Alesis é outro favorito. Eu fui um dos criadores deste sintetizador polifónico moderno analógico e tornou-se uma grande parte do meu som como teclista e compositor.

Podemos descrever a tua música como rock progressivo cruzado com ficção científica?
Gostei disso!

No Definitive Edition falas um pouco de cada faixa. Qual foi a tua intenção?
Eu sempre criei notas para cada álbum que produzi. Quando era um miúdo cresci a ouvir música e sempre gostei de ler as notas dos álbuns que comprava. Para mim, essa foi a nova literatura clássica, a literatura da música rock. Portanto, queria reviver essa tradição que foi em grande parte perdida quando apareceram os CDs nos anos 80. As introduções nos meus vídeos estão destinados a ser um conjunto de notas onde me podes ver e ouvir falar de cada canção em detalhe. Foi projetado para dar uma visão sobre cada faixa do álbum com visual, bem como informação sonora.

Quais as principais diferenças entre esta versão de The Galactic Collective e a que foi lançada em 2010?
Este é, naturalmente, a Definitive Collection que contém um segundo CD de áudio e um DVD de vídeo do álbum original. O DVD tem vídeos de cada música do álbum original mais algumas misturas e entrevistas extensas. É realmente a Definitive Collection em 3D!

Para além da tua participação com Lana Lane e álbuns com os Rocket Scientists, tens, nos últimos anos vindo a colaborar com outros nomes. Lembro-me, por exemplo, de Asia e Roswell Six. Como é que essas colaborações surgem?
Em todos os outros projetos, apenas fui contactado por um membro do projeto e convidado a participar. Com os Asia, John Payne entrou em contato comigo em 2007, disse-me que ia formar uma nova banda chamada Asia with John Payne e convidou-me para ser o teclista e coescritor. Eu conheci John há exatamente 10 anos quando a minha banda, Rocket Scientists, fez um espetáculo com os Asia na Alemanha. Curiosamente, os Saga também estiveram nesse espetáculo e o seu vocalista acabou por participar no álbum dos Roswell Six que eu produzi em 2009, juntamente com John Payne dos Asia e James LaBrie dos Dream Theater. John e eu já tínhamos uma forte relação profissional, e é claro, também gostei de trabalhar com James. Ele era um profissional total. O projeto Roswell Six foi-me apresentado para apoiar uma nova série de romances por autor Kevin J. Anderson, que escreveu os romances dos últimos dias de Dune. Ele e a sua esposa queriam criar um álbum de prog rock, onde ele iria escrever as letras. Eles tinham um acordo com uma editora que me contratou para escrever e produzir a música. Também tenho feito alguns espetáculos com um projeto divertido chamado Big Noize, que consiste de Joe Lynn Turner (vocais), Vinny Appice (bateria), Simon Wright (bateria), Carlos Cavazo (guitarra) e Phil Soussan (baixo) onde tocamos músicas de todos os clássicos dos hard rock e heavy metal. Já fizemos tournées pela Europa, América do Sul e EUA. No ano passado tocamos no Brasil, onde é claro, ouvimos muito Português falado!

Mudando de assunto, como tem sido a reação ao álbum mais recente da tua esposa Lana Lane, El Dorado Hotel?
A reação tem sido fantástica e os fãs adoram o novo álbum de Lana, tanto quanto nós. Este foi o primeiro álbum de Lana em 5 anos e realmente foi uma ótima maneira de voltar à cena rock. Esse álbum é realmente especial para nós e estamos muito orgulhosos dele. Eu acho que talvez seja o seu melhor.

Mas este álbum parece muito mais pesado que os anteriores. Quem incrementou isso? Tu ou Lana?
Eu acho que a evolução acontece naturalmente. Como produtor e responsável pelos arranjos, acho que fui eu quem criou um som mais pesado. Mas certamente não começámos o álbum, a dizer: “desta vez nós vamos fazer algo mais pesado!" Escrevemos e gravamos o que gostamos e os resultados são naturais e orgânicos. Acho que a bateria e as guitarras estão um pouco mais nítidas neste álbum do que no último Red Planet Boulevard, de modo que possam contribuir para o som mais pesado. Mas os nossos amigos que tocaram nesse - o grande Peer Verschuren (guitarra) e Ernst Van Ee (bateria) - não são instrumentistas menos pesados, por isso, novamente, deve ter algo a ver com a minha produção final.

E a respeito de novos álbuns de originais quer em teu nome próprio quer dos Rocket Scientists? Alguma novidade?
Eu adoraria fazer um álbum novo para ambos. Agora que finalmente completei estes grandes projetos do The Galactic Collective, vamos ver se consigo fazer isso!

Tu és um defensor da Bob Moog Foundation. Em que consiste essa fundação?
A Bob Moog Foundation começou quando lendário inventor Bob Moog faleceu e houve um grande clamor de apoio e votos para que o seu legado continuasse. Uma das filhas de Bob, Michelle Moog-Koussa, aceitou o desafio e começou a Bob Moog Foundation para responder a essa solicitação maciça de fãs e simpatizantes de todo o mundo. Michelle tornou-se uma grande amiga, o seu trabalho para a fundação é incansável e, acima de tudo, maciçamente eficaz. Ela é uma líder e organizadora incrível e já realizou coisas tremendas para a fundação. E apenas está no início. Quem estiver interessado deve visitar www.moogfoundation.org.

Falando agora em espetáculos ao vivo, atualmente estás com os Asia, certo?
Como referi anteriormente e devemos ser muito claros sobre isso, atualmente existem duas versões dos Asia. Uma deles é chamada simplesmente de Asia e consiste nos quatro membros originais da banda. Depois, há os Asia with John Payne, que tem o segundo vocalista/baixista da banda John Payne na frente. John Payne liderou os Asia durante 15 anos e ele é o responsável pela maioria dos lançamentos da banda. A segunda é a banda na qual eu estou envolvido. Nós tocamos a música desde o início da banda em 1982 através da era John Payne de 2005. Já tocamos provavelmente mais de 100 concertos, a banda soa incrível. John Payne e eu escrevemos um álbum há vários anos que John ainda está a terminar. O ritmo de conclusão desse álbum tem sido mais lento do que eu gostaria, mas tenho que ser paciente. Eu acho que vai valer a pena a espera. Quanto aos espetáculos com esta banda eles vão continuar. Aliás, já temos outro na próxima semana!

Já atuaste com as maiores estrelas do rock. Se eu te perguntar com que te deus mais prazer trabalhar, o que me responderias?
Eu adoro fazer tournées com pessoas profissionais. Na realidade já trabalhei com algumas pessoas muito famosas e também com algumas pessoas que "pensam" que são famosos. Os que pensam que são famosos são o pior tipo, eles podem arruinar uma tournée ou uma sessão de estúdio para todos os envolvidos com o seu narcisismo. Mas, então, referiria alguns dos mais famosos artistas com quem já trabalhei como Joe Lynn Turner, Jeff Scott Soto, Vinny Appice, Buck Dharma, Glenn Hughes… São pessoas muito humildes, muito próximos e extremamente profissionais, acima de tudo. Trabalhar com pessoas como estas é sempre um prazer e um privilégio.

Para terminar há mais qualquer coisa que queiras dizer aos nossos leitores e fãs portugueses?
Muito obrigado por todo o vosso apoio maravilhoso e espero tocar no vosso belo país em breve! OBRIGADO!

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