Entrevista: Random Touch

Trinta e três anos de colaboração com um pecúlio de dezasseis álbuns. Eis um curtíssimo resumo da carreira dos Random Touch. Flock é o seu último disco pondo ponto final a uma carreira marcada pela improvisação no processo de criação e pela poli-dimensionalidade dos seus temas. Christopher Brown falou a Via Nocturna e passou em revista a carreira do trio abrindo desde já várias portas para o seu futuro.
 
Viva! Obrigado por aceitares responder a Via Nocturna. Flock representa o último trabalho da vossa carreira. Quando decidiram terminar? Que motivações tiveram para esta decisão?
Olá e obrigado por nos contactares. Quanto ao fim dos Random Touch, eu diria que foi uma firme tomada de decisão no Verão de 2011. A minha vontade era sair deste estado de coisas e concentrar-me no meu trabalho a solo. Adoro a música, em parte devido à sua estrutura colaborativa, mas atualmente sinto uma clara necessidade de trabalhar sozinho.
 
Na tua opinião, Flock é o álbum certo ideal para terminar uma carreira? Por quê?
Eu sinto que é um dos nossos melhores álbuns, o que já é uma boa razão por si só. Mas também completa um ciclo. Por um lado, Hamill fez a completa masterização do baixo, algo que foi evoluindo ao longo dos anos. E porque em grande parte do álbum uso o meu novo kit Ayotte que adiciona muita frescura. Para além disso, o nosso tema de abertura dos concertos está lá também.
 
Como descreverias o som e a música criada em Flock?
Eu gosto do termo acaso transformacional. Atuamos em algumas dimensões não-bem-dimensionadas. O resultado não é apenas poli-ritmos e poli-harmonias, mas poli-dimensionalidade. E a música opera a um nível emocional profundo. Mas para a experienciares tens que te envolver. Se perdes tempo a tentar analisar não te vais envolver.
 
Como tem sido a reação dos fãs e imprensa para este novo álbum e o anúncio do fim da carreira?
Principalmente surpreendente. Temos estado estacionários com a nossa produção durante algum tempo, por isso esta decisão deve parecer abrupta. Ao mesmo tempo, tem havido um crescente interesse em muitos dos lançamentos anteriores, bem como relativamente a Flock.
 
Depois de dezasseis lançamentos, que balanço fazes de todo o trabalho criado?
Para mim sinto que é foi trabalho coeso e diferenciado. Os primeiros lançamentos são algo duros em termos da qualidade dos equipamentos, da engenharia e da mistura. Particularmente adoro alguns dos 16 álbuns, e apenas estou dececionado com um lançamento.
 
Se eu te perguntasse qual foi o vosso melhor álbum e o vosso melhor espetáculo, o que me responderias?
Eu acredito que o Alchemy e o Flock são os meus favoritos, mas isso é uma pergunta difícil de responder. O nosso concerto em 19 de setembro de 2009 9-19-09 no Starline Gallery Performance Space foi o meu favorito.
 
Ao fim de uma carreira tão longa, certamente aconteceram coisas engraçadas. Lembras-te de alguma que possa ser contada aos nossos leitores?
Sim, tenho uma. Quase metade do tempo que eu, Hamill e Day estivemos juntos não utilizamos instrumentos tradicionais. Nós fizemos música muito incomum com utensílios agrícolas antigos e outros materiais de um celeiro que Hamill havia reconstruído. Uma família de guaxinins vivia no topo do celeiro e todas as noites cerca das nove horas eles desciam e iam à caça. Mais ou menos uma vez por semana, ficávamos lá até às 9 a escrever música antes de irmos para uma outra área para vermos um filme. Às vezes, gravamos na extremidade do celeiro outras, no meio. A certa altura o gravador de campo começou a falhar e verificamos que ele funcionava quando estava na extremidade do celeiro, enquanto muitas vezes não funcionava no meio do celeiro. Parecia algum tipo de situação assustadora. Finalmente levei-o porque ele trabalhava num lugar e não no outro. A oficina descobriu que no interior a soldadura tinha rompido na horizontal, com metade da solda suspensa sobre a outra metade. A situação então fez sentido: quando na extremidade do celeiro fechava sempre a capa de couro porque quando tocávamos até mais tarde do que o habitual, os guaxinins começavam a deitar lixo para baixo para nos tirar do caminho (eles achavam-se donos do celeiro). Ao pressionar a tampa fechada religava a solda quebrada. No meio do celeiro deixamos sempre a tampa aberta para ler os mostradores.
 
Olhando para trás, ao longo dos vossos trinta e três anos de colaboração, o que vês?
Vejo amantes da música que exploraram regularmente e quase exclusivamente a área da improvisação pura, ou seja, sem estrutura, sem discussão antes do tempo, apenas dependente do puro acaso. É como se tivéssemos uma expedição em curso a esta terra de dimensões alternativas. Dissemos isso melhor em Through the Lens of the Other Dimension. As grandes aventuras de hoje estão em dimensões além do trio familiar.
 
De certeza que irão continuar ligados à música. A teu respeito em particular, que outros projetos tens em mente?
Eu gosto do improviso e assim irei continuar, mas espero não fazer tantas gravações e misturas. Também poderei fazer algumas apresentações a solo e Hamill, Day e eu provavelmente iremos ter jams periódicas com instrumentos não-tradicionais no celeiro do Hamill. No entanto, será a pintura e a escrita de ficção que irá ocupar agora a maior parte da minha produção criativa.
 
Finalmente gostarias de acrescentar mais alguma coisa aos nossos leitores?
Sim. Se ainda não foi feito, exorto os teus leitores a explorar a música clássica do século XX. Concerto para Orquestra de Bartók, Rito da Primavera de Stravinsky, 1ª e 5ª Sinfonias de Prokofiev, Ligeti, Vaughan Williams, Barber, Carter, etc. Essa música foi uma grande surpresa quando me deparei com ela a meio da minha adolescência. Ela vai alargar o se pensa que a música é capaz de fazer. É isso! Obrigado mais uma vez, Via Nocturna.

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