Entrevista: The9thCell

David Pais é um dos músicos mais eclécticos do panorama nacional. Membro de diversos projetos em diferentes áreas, ainda acaba por ter tempo para, de forma individualizada, trabalhar nos seus The9thCell. Ao longo dos anos este nome tem sido sinónimo de rock progressivo e alternativo, derrubando barreiras e não impondo quaisquer tipo de limites no processo de composição. O estranho título de Galga de Zebra Ilesa batiza o seu mais recente trabalho, primeiro com edição apoiada por uma editora, no caso a Infektion Records. Confiram as impressões trocadas com Via Nocturna.
 
Olá David! Novo álbum e em nova editora. Suponho que seja bom o atual momento dos The9thCell?
Sim! Efetivamente é uma excelente fase para o projecto. Já andava há um tempo a pensar em associar-me a uma editora, mais por uma questão de divulgação e promoção do que outra coisa, e foi o melhor que podia ter feito. The9thCell está a ser falado pelos sete ventos, e já há muita crítica de várias partes do mundo a chegar-me ao email, o que para mim é ótimo. Porreiro era haver compras do álbum (risos).
 
Começando por aí, como acontece este lançamento pela Infektion? Esse acaba por ser um dos pontos de destaque, uma vez que os teus álbuns anteriores, nomeadamente a trilogia Point Black Range havia sido editada em formato independente…
Acabou por ser um processo natural... já conheço o Joel Costa há uns bons anitos, e participei no seu antigo projeto Headzum. Sempre o apoiei no que pude relativamente aos seus vários projetos de Webzines e quando soube que ele ia abrir uma editora, fiquei empolgado com a ideia. Como tenho vindo a negar propostas de net-labels devido a um incidente com uma editora portuguesa em 2006, desta vez decidi arriscar e deixar o futuro promocional do projeto nas mãos dele e da sua Infektion Records. Foi um passo em grande, visto eu ter sempre disponibilizado os meus trabalhos gratuitamente até maio deste ano, quando retirei os meus álbuns de download gratuito e migrei para o Bandcamp.
 
Por falar nessa trilogia, na altura foram três álbuns num ano. Começaste logo a preparar este Galga de Zebra Ilesa ou não?
Por acaso não. O “Galga” surgiu-me apenas este ano, depois de uma tarde mal dormida, muito basicamente. Já tinha uma música composta e que já estava quase abandonada, que gravei em janeiro de 2011, que acabou por tornar-se na Soft Hearted and Hard Cocked e será talvez a única reminiscência do Point Blank Range.
 
E, na tua opinião, em que pontos este novo trabalho se afasta ou aproxima do teu trabalho anterior?
Bem... eu creio que este novo álbum afasta-se a praticamente todos os níveis do Point Blank Range. Quer a nível de composição, produção, mistura, masterização... Creio que o único ponto em comum será a eclecticidade de ambos os trabalhos, visto eu aborrecer-me se fizer a mesma coisa repetidamente.
 
Já agora, podes explicar o surgimento e/ou significado deste título no mínimo estranho, Galga de Zebra Ilesa?
Este nome surgiu numa célebre noite de bebedeira, em que comecei a imaginar nomes para um futuro álbum. No meio de tanta diarreia mental, às tantas lembro-me de uma expressão que é muito comum na minha terra natal, que é Galga, que significa Fome. Juntando a expressão “Tenho tanta fome que comia uma zebra!”, o resto foi natural. Tem um significado muito específico para mim, mas pode ser interpretado de várias formas. Na minha ideia, este nome refere-se a uma fome por um amor saudável.
 
Como é o processo de composição, levando em linha de conta a transversalidade estilística que carateriza o projeto?
O processo de composição que utilizei neste álbum é puramente delicioso. Eu gravo várias ideias e, por norma, nunca as ensaio. Para este álbum, o processo foi muito direto e incisivo... Tinha uma ideia base para um tema e, sem ensaiar, fui gravando e adicionando secções a cada um dos temas, sem ter em conta o tempo dos mesmos. Não gosto de me sentir pressionado a compôr a pensar no tempo que uma música vai ter. Gosto que os meus temas sejam livres e espontâneos, e desta vez deixei-me levar pelas ideias que ía tendo, daí as músicas serem tão diferentes entre si, e isso é algo que gosto. Para mim, explorar a Música nas suas várias vertentes é muito importante e para este projeto, acaba por ser um dos pilares mais característicos das viagens progressivas que gosto de fazer.
 
Para este novo trabalho voltas a trabalhar praticamente sozinho. Isto é os The9thCell continuam a ser apenas o Davis Pais. Porquê?
Muito basicamente porque é um projeto pessoal. Trabalho noutras bandas onde dou apenas o meu contributo para um trabalho coletivo, mas também sinto a necessidade de criar de uma forma mais íntima.
 
Mas tens a participação de um conjunto de gente neste trabalho. Podes apresentar-nos os teus convidados?
Sim! Logo no segundo tema, no Cavaleão, convidei o vocalista dos Perfect Sin, Cláudio Brandão, que usou a sua garra para dar ainda mais impulso ao tema. No tema mais funky chamado Morning Glory, convidei o Eduardo Serraventoso, guitarrista em Ashes, para fazer uns solos aqui e ali com o seu toque mais bluesado. Na Liberdagem (Este Meu Poço de Romantismo Furioso) convidei o meu violinista em Ashes, Marco Rosa, e também o meu comparsa em No Tribe, Pedro Isidoro (Mordomo e Sounds151), e ambas as colaborações foram geniais... O Marco criou um momento belo com o seu violino e o Pedro interveio com uma magnífica letra e linhas de voz deliciosas. Na Gentlemania contei com a ajuda de Alex Vaz e o seu companheiro de armas em Springshoes, Francisco Esteves, que pegaram no tema e finalizaram-no de uma forma inacreditável! Em Soft Hearted and Hard Cocked, como eu iria necessitar de uma guitarra solística com nível, pedi o contributo ao grande Bruno Lopes, de Slime Fingers, que elevou ainda mais a fasquia do tema, a um nível que pelas minhas mãos seria impossível. Por fim, na Jacktiv(h)ate, conto com a participação do Samuel Luís, vocalista dos Hands of Guilt, que fez uma breve mas pesada aparição na fase mais violenta do tema, e na secção mais calma e melódica do mesmo o Pedro Isidoro volta a atacar comigo, em conjunto com uma guitarrada bem stoner composta e tocada por Gonçalo Pardal.
 
E como foi decidido o papel deles em cada tema? Tiveram total liberdade para criar a sua participação ou já estava tudo decidido à partida?
Eu sou muito específico no que toca a participações e só convido quando sei que essa determinada pessoa tem uma característica que vai ajudar a melhorar o tema, seja por pertencer a um género aproximado à pessoa, seja pela sua criatividade e talento. Eu dou sempre total liberdade para que os meus convidados criem, e aliás, é isso mesmo que eu peço sempre: “ouve e faz o que te apetecer com isto” (risos). Por acaso, não estava a contar ter participações neste trabalho, mas ao longo do tempo em que fui concluíndo os temas, fui imaginando como seria este ou aquele cantar ou tocar ali, e acabei por convidar uma mão cheia de gente talentosa! Sem eles, este trabalho não estaria tão bom.
 
Neste trabalho cantas alguns temas em português. É a primeira vez que tal acontece ou não? E se sim, qual o balanço que fazes dessa experiência?
Não é a primeira vez. Já o tinha feito no Lovely Xmas Lullabies que lancei em 2006, em que cantei o tema Hail Mon(k)ey! com o grande Nuno Mano (vocalista de Xtigma), e mais tarde, em 2010 cantei O Jardim do Alberto sozinho. Esses dois temas, e depois de ter ouvido Sounds151, que é um projecto do Pedro Isidoro onde ele canta (e bem, diga-se de passagem...) em português, inspiraram-me a perder o medo e cantar um pouco na minha lingua nativa. Foi uma experiência muito positiva para mim... Adoro escrever em Português e não descuro uma possibilidade futura de o voltar a fazer. Pelo contrário.
 
Para as apresentações ao vivo, quais são os músicos que te acompanham?
Quem me dera ter banda para tocar isto ao vivo...! Ainda não há banda para levar The9thCell ao vivo, mas já tenho alguns músicos em mente para convidar caso surja alguma proposta boa por parte de alguma promotora para participar nalgum concerto ou festival. É só haver essa oportunidade.
 
E o que tens já planeado para os próximos tempos?
Para já, estou a iniciar a composição lírica de um musical chamado Unisson, que será o próximo álbum de The9thCell, onde pretendo explorar a minha musicalidade em praticamente todos os géneros musicais que me agradam. Já tenho alguns vocalistas em mente para encarnarem alguns dos personagens já criados e agora é ir devagarinho. Já tenho muitas ideias guardadas e espero em breve iniciar a composição musical do dito. Planeio também finalmente estrear The9thCell ao vivo, se tal for possível.
 
A terminar, queres acrescentar algo mais para os nossos leitores?
Gostaria de apelar ao apoio à Música nacional... Este novo álbum não irá ser disponibilizado gratuitamente, por isso peço a compreensão a todos os que estavam habituados a fazer o download dos meus álbuns. A crise apertou, e eu não iriei conseguir continuar a criar novos trabalhos sem ajuda... Para teres noção, este Galga foi gravado com uma guitarra emprestada pelo Sr. Nuno Pereira, meu guitarrista num outro projecto que tenho chamado Ipsis Verbis. O álbum não está caro, de todo, e espero conseguir reunir algum dinheiro para conseguir comprar uma guitarra nova. Pelo menos isso.

Comentários